Cidade foi exemplo em organização, mas teve queda no turismo e subutilização de equipamentos esportivos
Por Miguel Caballero
RIO - Será difícil encontrar entre visitantes e atletas que participaram das Olimpíadas australianas alguém que tenha má lembrança da competição. Sistemas de transportes, equipamentos esportivos e infraestrutura para receber estrangeiros funcionaram de forma impecável. A economia local se desenvolveu. Olhada em retrospectiva, Sydney deixa ao Rio a lição de que, para a cidade-sede, os Jogos não terminam quando a pira é apagada na cerimônia de encerramento.
Os cerca de quatro milhões de habitantes de Sydney herdaram ganhos urbanos, especialmente ambientais e em mobilidade, mas a ausência ou erros no planejamento do pós-Olimpíadas permitem a conclusão de que o legado poderia ser maior: nos anos seguintes, a cidade não conseguiu manter os níveis de estímulo econômico e turístico impulsionados pelos Jogos, e o aproveitamento dos equipamentos construídos para a competição ficou muito abaixo das expectativas.
O cônsul brasileiro em Sydney, André Costa, chegou à Austrália em janeiro deste ano, e seu principal objetivo na missão diplomática é estudar e repassar ao Brasil os efeitos das Olimpíadas na cidade australiana. Ele explica que o fato de o Parque Olímpico, região que concentra a maioria dos equipamentos esportivos, ter sido construído na cidade de Parramata, no entorno metropolitano de Sydney, não é o principal motivo de sua subutilização.
— O principal motivo é que os estádios preexistentes em Sydney, e que foram reformados na última década, concorrem com os espaços do Parque Olímpico. Isso influencia mais do que a distância do parque ao centro da cidade. E tem dificultado a parceria do Estado com o setor privado para viabilizar os dois estádios das Olimpíadas. Apesar de um deles, o ANZ Stadium, receber mais de um milhão de espectadores anuais, é corrente o debate aqui sobre uma eventual subutilização das instalações. Mas a concentração dos equipamentos ali favoreceu uma região menos privilegiada da cidade, foi importante — explica.
Cidade não segurou turistas
Outro ponto fraco da herança olímpica em Sydney é a queda no turismo após os Jogos. A cidade australiana já era um polo que atraía muitos viajantes antes de se tornar sede olímpica. Houve um aumento de 1,6 milhão de visitantes no ano dos Jogos, e esperava-se que a exposição internacional da cidade elevasse o turismo a um novo patamar. Mas não foi o que ocorreu: pelo menos dez hotéis construídos ou ampliados para as Olimpíadas fecharam após os Jogos, tornando-se prédios residenciais.
Houve também, por outro lado, heranças bem positivas. Seria inútil esperar, em Sydney, aquilo que os cariocas sonham e nossos governantes prometem para o pós-2016: que as Olimpíadas sirvam como alavanca de transformação do quadro social da cidade. Simplesmente porque a cidade australiana já era desenvolvida e tinha alto padrão de qualidade de vida antes de sediar os Jogos. Ainda assim, o legado mais positivo de Sydney tem correspondência com o que se espera do Rio: os ganhos ambientais.
Despoluição de baía é bom exemplo
Assim como ocorre com o complexo lagunar da Barra e de Jacarepaguá, a despoluição da Baía de Homebush, no entorno de Sydney, motivo de constantes protestos do Greenpeace, estava entre as promessas olímpicas. Ainda que com algum atraso (o processo só terminou depois das Olimpíadas), a baía hoje tem águas limpas. Os Jogos de 2000 coincidiram com o aumento da discussão sobre sustentabilidade, e foram os primeiros a adotar políticas de reaproveitamento de água, lixo e energia, tornando-se paradigma para o COI, que passou a exigir o mesmo de todas as sedes.
O cônsul brasileiro acrescenta ainda outro importante legado na visão de quem vive no centro de Sydney.
— Além do incremento comercial e residencial da zona oeste da Grande Sydney, houve importantes melhorias nas vias de acesso rodoviária e ferroviária e a construção de 35km de ciclovia — relata Costa, num exemplo de obras fundamentais para a mobilidade de pessoas durante os Jogos e que permaneceram para os moradores.
Numa cidade com necessidades mais modestas, os custos também ficaram abaixo do que o Rio precisará gastar. Como aqui, lá também houve divisão dos gastos entre entes públicos e privados. Segundo a Universidade Monash, de Melbourne, o governo estadual de New South Wales, onde fica Sydney, investiu US$ 1,9 bilhão. A instituição estima o custo total dos Jogos em cerca de US $ 6,5 bilhões.
É utópico pensar que o Rio sairá de 2016 desenvolvido como Sydney. Mas a cidade australiana, que elevou o padrão de exigência na execução dos Jogos, dá exemplos factíveis de serem seguidos e alertas sobre erros a serem evitados.
Prefeito acumulou cargos no Comitê Organizador
Filho de imigrantes italianos, Frank Sartor foi eleito Lord Mayor (chefe do conselho municipal que administra a cidade de Sydney, equivalente ao cargo de prefeito) em 1991, como um político independente, sem ligação com os principais partidos australianos. Foi o prefeito recordista, em toda a história da cidade, em longevidade no cargo, 12 anos.
Assim, esteve à frente de todo o processo de organização dos Jogos Olímpicos, durante sua realização e ainda nos anos seguintes, o que ajudou a construir uma imagem de político realizador. Nos anos anteriores às Olimpíadas, ele acumulou o cargo de prefeito com o de vice-presidente do comitê de candidatura olímpica e, posteriormente, de vice-presidente do Comitê Organizador dos Jogos.
A oportunidade de sediar as Olimpíadas proporcionou a Sydney uma enorme exposição internacional, o que foi aproveitado pela administração de Sartor, que criou eventos como um festival de música, outro literário e uma grande celebração do Ano Novo chinês. Em 2002, ele filiou-se ao Partido Trabalhista, um dos mais fortes no país.
Sua boa avaliação no comando dos Jogos serviu de trampolim para a sequência da carreira política. Em 2003, renunciou ao cargo de chefe do conselho municipal para candidatar-se ao parlamento do Estado de New South Wales, onde está Sydney, mas continuou atuando no Executivo, com destaque na vida da cidade: nomeado secretário estadual de Combate ao Câncer, ele implementou rigorosa legislação de proibição ao fumo em New South Wales, o que lhe valeu críticas e elogios da população. Neste período, acumulou também os cargos de secretário estadual de Energia e de Ciência.
Em 2009, perdeu uma eleição interna para comandar o Partido Trabalhista. No ano passado, anunciou a aposentadoria da política e publicou um livro com críticas a seus ex-correligionários do trabalhismo.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/licoes-olimpicas-sydney-criou-paradigma-ambiental-6264528#ixzz28caLw6QQ
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