Capital inglesa supera algumas pequenas falhas com esforço e dedicação
Por João Gabriel Rodrigues e Lydia Gismondi
Um desavisado poderia pensar: "Londres, casa dos Jogos Olímpicos em 1908 e 1948, tinha tarimba suficiente para receber mais uma edição". Mas nem todo mundo lembra dos cenários atípicos das vezes anteriores. Uma, realizada de última hora depois que um vulcão arrasou Roma, cidade escolhida para receber o evento. A outra, sede do retorno da competição após 12 anos de jejum, por causa da 2ª Guerra Mundial. Diante de números impressionantes, desafios transformadores e a difícil missão das "Olimpíadas Verdes", a capital inglesa era quase uma novata em 2012. Com mais acertos do que erros, agradou em sua "estreia" pela organização e deu o caminho das pedras para o Rio de Janeiro, a casa das próximas Olimpíadas, em 2016.
Não dá para dizer que o mundo comprou a ideia dos Jogos Olímpicos de 2012 em Londres desde o início. Até um mês atrás, sequer os londrinos pareciam acreditar no sucesso dos Jogos. Mas os organizadores viraram o jogo. Com categoria. Entregaram aos locais e às pessoas de cada canto do planeta um evento organizado, bonito, consciente, limpo, seguro e contagiante. Nem tudo foram flores, é verdade. No caminho, gafes, acidentes e algumas arquibancadas vazias. Ainda assim, foi uma lição ao Rio de como envolver 8 milhões de pessoas em um mesmo espírito.
- Londres está em um estágio diferente do nosso. É incrível a cidade funcionar assim. Eles têm um ótimo sistema de transporte, mas colocaram para funcionar com muita competência. Os ginásios são funcionais, não vão ficar "elefantes brancos". O de vôlei eu diria que é muito simplório, mas ótimo de assistir e também ver na televisão. Temos de olhar as Olimpíadas e priorizar o que ela deixa para a cidade. Londres fez muito isso, e é o que vamos fazer também - disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes, logo após o fim da cerimônia de encerramento.
Instalações agradam
Tradicionalmente conhecidas como as estrelas dos Jogos Olímpicos, as instalações de Londres agradaram. Fora algumas exceções, como a Arena do Vôlei, todas apresentaram design moderno, além de serem bonitas e funcionais. O destaque, como era de se esperar, foi o Parque Olímpico. Em uma área extensa de 2,5 quilômetros, reuniu oito novos equipamentos. Londres investiu cerca de R$ 30 bilhões na "menina dos olhos", que teve, como curiosidade, 98% de material reciclado em sua construção.
A organização, ponto crucial para o bom andamento da competição, surpreendeu. A casa estava arrumada. Tirando o trânsito, tudo ocorreu na mais perfeita ordem. As linhas de metrô levaram o torcedor para qualquer instalação. Placas espalhadas por todo canto indicavam em qual estação o público deveria descer de acordo com cada arena. As ressalvas ficaram por conta da lotação, de alguns atrasos em horários de pico e de um "apagão" logo no início dos Jogos.
O atropelamento de um ciclista por um ônibus da competição também nos primeiros dias colocou em risco a boa imagem dos organizadores. E, ainda que o esquema de segurança funcionasse bem, com um bom número de militares envolvidos, algumas falhas foram expostas, como a invasão de um brasileiro à estreia da seleção masculina de vôlei.
O exército de voluntários também foi essencial para manter a ordem na capital inglesa nas duas últimas semanas. Cerca de 70 mil pessoas se espalharam por todos os cantos de Londres. E eles não tinham apenas como objetivo auxiliar os torcedores. O grupo teve um papel fundamental para os planos da cidade de mudar a imagem do britânico para o mundo. As Olimpíadas de 2012, então, viraram os "Jogos da Simpatia".
Londres também permitiu a venda de bebidas alcoólicas nos locais de competição. E isso não resultou em problemas nas arquibancadas. Na cidade dos pubs, os torcedores mantiveram a tradição nos eventos, mas tudo de maneira organizada e moderada.
Problemas com ingressos
As tais flores que faltaram vieram, principalmente, da má distribuição dos ingressos. Em vários eventos, como o vôlei, enormes clarões se formaram nas arquibancadas. Em contrapartida, muitas pessoas ficavam na porta de algumas instalações implorando por bilhetes. Para amenizar a situação, a organização colocou à venda as entradas que encalharam a preços mais baratos.
Por outro lado, os parques da cidade viraram um refúgio de quem não conseguiu ingressos para os eventos. Com grandes telões espalhados por Londres, locais como o Hyde Park e a Trafalgar Square foram tomados por torcedores e se transformaram em um ponto de encontro entre esporte e música, com shows de bandas britânicas e a presença de medalhistas olímpicos.
A estrutura para os jornalistas, de maneira geral, agradou. O centro de imprensa contou com salas de conferência, locais de alimentação, farmácia e até serviços diversos como massagem, salão de beleza e sala de descanso. Havia também um sistema de transporte eficiente, com ônibus de meia em meia hora para todas as instalações dos Jogos, de competição e de treino. Em algumas instalações, as distâncias eram grandes, mas tudo bem sinalizado e um bom número de voluntários. As tribunas também possuíam uma boa estrutura, com informações impressas sobre o evento.
As opções de alimentação, no entanto, não foram das melhores. Dona de uma culinária malvista na Europa, Londres abriu espaço para comidas tradicionais de outros países. Com a forte imigração, a capital inglesa foi invadida por restaurantes indianos e orientais. Mas quem preferia outros tipos de pratos teve problemas para se virar durante os Jogos. Nos locais de competição, o público teve poucas opções. Salvo na Arena de North Greenwich, que conta com um shopping em seu complexo.
O forte calor em alguns dias dos Jogos fez até o teleférico que ligava a Arena de North Greenwich ao Complexo Excel parar por problemas técnicos. Na Vila Olímpica, atletas também sofreram com a temperatura, principalmente no início das Olimpíadas.
E também houve espaço para gafes. Antes mesmo da cerimônia de abertura, surgiu a primeira delas. A seleção feminina de futebol da Coreia do Norte não queria entrar em campo na primeira rodada dos Jogos de Londres. O motivo? A organização colocou a bandeira da Coreia do Sul no telão durante o protocolo de início da partida. Dados geográficos também foram motivo para mico. Os organizadores atribuiram à Rússia cidades e regiões da Ucrânia onde nasceram alguns atletas. E, segundo o site oficial, "Mono" Menezes foi o técnico das seleções masculina e feminina de futebol do Brasil.
Com muito mais acertos do que erros, Londres deixa uma série de ensinamentos, que o Rio de Janeiro tem quatro anos para aprender.
Fonte: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/2012/08/londres-faz-jogos-da-organizacao-e-deixa-serie-de-exemplos-para-o-rio.html
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