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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Com 'Vila Olímpica' e 6 mil pessoas, são abertas as Olimpíadas Escolares


Delegações de 26 estados, além de Distrito Federal, Cuiabá e Reino Unido disputam o torneio, de 25 de novembro a 8 de dezembro, em Cuiabá (MT)

Por Ana Carolina Fontes

Celeiro de atletas, as Olimpíadas Escolares vão reunir cerca de seis mil alunos, treinadores, árbitros, voluntários e membros da organização para a maior edição da história do torneio, de 25 de novembro a 8 de dezembro, em Cuiabá (MT). A integração entre os jovens das diferentes delegações e a experiência do "espírito olímpico", com direito a um Centro de Convivência com clima de Vila Olímpica, prometem dar o tom da competição, que envolve esporte, educação e cultura. Os quatro mil estudantes, entre 15 e 17 anos, representam 1.217 escolas públicas e particulares de 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal e da cidade-sede na etapa nacional, com disputas em 13 modalidades: atletismo, basquete, ciclismo, futsal, ginástica rítmica, handebol, judô, natação, taekwondo, tênis de mesa, vôlei, xadrez e vôlei de praia, novidade no programa de atividades.
A cada edição, o evento envolve mais de um milhão de estudantes em todo o país nas etapas municipais, estaduais e nacional. Quem se destacar nas finais em Cuiabá, poderá ainda representar o Brasil no Festival Olimpico da Juventude da Austrália, que será realizado no Parque Olímpico de Sydney, de 16 a 20 de janeiro de 2013.
- As expectativas são as melhores. Este será o maior evento já realizado desde que iniciamos o projeto em 2005, com mais de seis mil pessoas, a presença de observadores de 15 países de quatro continentes, 16 embaixadores (atletas olímpicos e pan-americanos), a estreia do vôlei de praia e uma delegação do Reino Unido. Além disso, haverá um prêmio especial para alguns atletas de atletismo, judô e natação. Eles serão indicados para representar o Brasil no Festival Olímpico da Juventude da Austrália. Isso nos permite acreditar que estamos construindo um caminho sólido de transformação sócio-educacional usando o esporte como principal ferramenta - disse Edgar Hubner, diretor geral das Olimpíadas Escolares.
Organizado há sete anos pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), em parceria com o Ministério do Esporte, o torneio estudantil completou nesta temporada o segundo ciclo olímpico como uma referência nacional. Nos Jogos de Londres, a delegação verde-amarela contou com 17 atletas que despontaram nas Olimpíadas Escolares. Entre as revelações, estão a campeã olímpica Sarah Menezes e Mayra Aguiar, medalhista de prata no judô, além das finalistas Ana Cláudia Lemos e Rosângela Santos no atletismo e do nadador Leonardo de Deus, semifinalista na capital britânica.
- As Olimpíadas Escolares foram uma das fases que tive que passar na minha carreira até integrar a seleção brasileira. Eu sempre gostei de competir, e vejo o torneio como uma boa preparação para os jovens. O esporte é saudável, tira muitas crianças da marginalidade, trazendo mais disciplina, responsabilidade e organização para quem pratica a atividade física - disse a judoca Sarah Menezes, dona de três títulos na competição estudantil.
A judoca de Teresina, no Piauí, será uma das 16 embaixadoras do torneio, ao lado de outros destaques olímpicos e pan-americanos. Os ídolos do esporte brasileiro irão trocar experiências com os atletas da nova geração e participar de uma série de atividades, como palestras, demonstrações e cerimônias de premiação. No elenco escolhido pelo COB, algumas das atrações são Arthur Zanetti, campeão olímpico na ginástica artística, Alison (vôlei de praia), Yane Marques (pentatlo modernos), Vanderlei Cordeiro (atletismo), Ana Sátila (canoagem slalom), Angelica Kvieczynski (ginástica rítmica), Diogo Silva (taekwondo) e Hugo Hoyama (tênis de mesa). 
Além das competições, outro destaque será a programação sócio-educativa e cultural, com atividades extracurriculares que têm como objetivo aproximar os estudantes aos valores olímpicos e conscientizá-los sobre a importância da prática esportiva. Consideradas um dos cinco maiores eventos escolares do mundo, as Olimpíadas Escolares irão receber observadores de comitês olímpicos e entidades de 15 países. Os representantes dos quatro continentes estarão em Cuiabá para conhecer os detalhes da organização em um programa que conta com a chancela do Comitê Olímpico Internacional (COI), através da Solidariedade Olímpica Internacional (SOI). Desde 2007, 60 visitantes estrangeiros visitaram o torneio estudantil.
A convite do COB, uma delegação de 20 atletas britânicos participará do evento como parte de um intercâmbio cultural entre a Inglaterra e o Brasil, nas modalidades de natação, vôlei e vôlei de praia. Após a boa atuação nas Olimpíadas Escolares do ano passado, alguns brasileiros foram escolhidos para representar o país nos Jogos Escolares do Reino Unido, em Londres, antes do início dos Jogos Olímpicos de 2012.

Fonte: http://globoesporte.globo.com/esporte-estudantil/noticia/2012/11/com-vila-olimpica-e-6-mil-pessoas-sao-abertas-olimpiadas-escolares.html

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Confira entrevista do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, à revista Veja


Entrevista com Aldo Rebelo

O ministro do Esporte critica o excesso de jogos do escrete brasileiro, não teme problemas na Copa e promete atrelar patrocínios oficiais a melhor desempenho de atletas e cartolas

Otávio Cabral

Aldo Rebelo é um político acostumado a missões delicadas. Entrou no ministério de Lula para conter a crise causada pelo primeiro escândalo envolvendo José Dirceu, o caso Waldomiro Diniz. Presidiu a Câmara dos Deputados depois da renúncia de Severino Cavalcanti. Comunista histórico, foi escalado para relatar o Código Florestal, quando deu um exemplo de bom-senso que desagradou aos companheiros de esquerda. Há dez meses, assumiu o Ministério do Esporte, que coordenará a organização da Copa do Mundo e da Olimpíada. Apesar do potencial de problemas dos eventos, Aldo avalia que o atual planejamento evitará grandes falhas. Aos 56 anos, ele só perde um pouco o otimismo ao falar de dirigentes, da seleção de futebol e do desempenho do Brasil em Londres.

A seleção brasileira fez dois jogos no Brasil que não encheram os estádios e não agradaram à torcida. Há um processo de elitização do futebol? A seleção não atrai mais o torcedor?
Há um evidente processo de elitização, o que pode ser prejudicial ao futebol, que é uma instituição que nasceu no Brasil à margem do mercado e do estado. É uma instituição essencialmente popular, que deu aos pobres seus grandes ídolos, como Friedenreich, Fausto "Maravilha Negra", Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Pelé, Neymar... Quando o mercado se apropria dessa instituição, o torcedor deixa de se comportar como um apaixonado pelo esporte e passa a ser um consumidor do produto. Isso é legítimo, mas traz um risco ao próprio negócio. Se o produto não for de boa qualidade ou for banalizado, o público se desencantará. A seleção brasileira está exposta a jogos que têm apenas interesse comercial, com adversários fracos como África do Sul e China. A convocação da seleção era um evento que parava o país. Hoje, alcançou um grau de vulgaridade que não impressiona mais a ninguém. Os dirigentes precisam levar isso em conta em benefício do próprio futebol. A seleção brasileira está vulgarizada e banalizada. Isso é um problema a dois anos da Copa do Mundo no Brasil.

A seleção deixou de interessar ao público?
Sem dúvida. Hoje, o torcedor dá muito mais valor a seu clube do que à seleção. E, muitas vezes. vai ao estádio para vaiar na seleção o atleta do adversário, como aconteceu com o Neymar no amistoso contra a África do Sul. O público está praticamente desprezando a seleção. A culpa não é do torcedor, mas do espetáculo que ele recebe.

Há um risco de esse desprezo à seleção chegar ao ápice se o Brasil tiver um mau desempenho em 2014?
A Copa costuma reconstituir o espírito do torcedor de seleção. É um momento em que, apesar das decepções, a torcida trata bem os jogadores. Ainda mais em casa.

O torcedor comum conseguirá ver o Brasil nos estádios ou o preço dos ingressos será um impeditivo?
Pela forma como é organizada, a Copa já é um evento restrito. A maioria da população não vai passar nem perto dos estádios, pois o Brasil terá de garantir ingressos para torcedores do mundo inteiro. Não dá para fazer uma Copa do Mundo com outros 31 países e reservar entradas apenas para os brasileiros. A Copa é um torneio ao qual o torcedor comum praticamente não tem acesso. Conseguir um ingresso é quase como ganhar na loteria.

Um fracasso dentro de campo é um risco concreto. E, fora dos campos, o que mais preocupa o governo hoje?
A Copa e a Olimpíada não têm muito mistério nem segredo. Exigem apenas muito trabalho. O governo está controlando tudo de perto, já visitei pelo menos três vezes cada cidade-sede. As obras estão dentro do prazo, mas não se pode descuidar. Por isso, o Brasil fez um acordo com as duas cidades que organizaram os Jogos Olímpicos anteriores - Pequim e Londres - para não deixar que erros sejam repetidos, principalmente em transporte, telecomunicações e segurança.

Há o risco de algum estádio não ficar pronto a tempo para a Copa das Confederações?
O limite é novembro, quando os estádios precisam estar preparados para o sorteio das chaves da Copa das Confederações, que começa em junho de 2013. Logo depois do sorteio, inicia-se a venda de ingressos e de espaços publicitários. O governo espera que todos estejam prontos, mas os que não estiverem ficarão de fora, não há segunda chance. O mais atrasado hoje é o de Recife, é o que mais preocupa.

A violência da torcida é uma preocupação?
A violência é um problema que foi muito reduzido dentro dos estádios e que hoje ocorre mais longe dos campos. Para que se reduza ainda mais o risco, os ministérios do Esporte e da Justiça farão um acordo para colocar câmeras nos estádios, banir os torcedores violentos e acompanhar permanentemente as torcidas que usam a internet para marcar brigas. O combate a esses grupos não pode se restringir aos estádios. E preciso acabar com a impunidade para garantir ao torcedor comum o direito de acompanhar o futebol em paz.

Como o senhor qualifica o desempenho do Brasil na Olimpíada de Londres? Foi pior do que a previsão do governo?
Era previsível que o Brasil tivesse um desempenho melhor do que a média das últimas Olimpíadas porque os investimentos foram ampliados. O Comitê Olímpico Brasileiro previa quinze medalhas e o governo achava que dava para chegar a vinte, mas ficamos em dezessete. Melhoramos em esportes individuais, como judô e boxe, e decepcionamos mais uma vez no futebol, em uma prova de que não há relação direta entre a prática em larga escala e a conquista da medalha de ouro. Mas é fato que teremos de melhorar muito para 2016, porque existe uma responsabilidade como país-sede e precisamos de um desempenho compatível com essa expectativa.

O Plano Brasil Medalha, que prevê investimento extra de 970 milhões de reais nos esportes olímpicos, não chegou muito tarde?
É claro que se nós tivéssemos cuidado disso quatro anos antes poderíamos ter uma perspectiva melhor, mas ainda é possível aprimorar nosso desempenho em relação a Londres. Há um atraso histórico do esporte no Brasil que não pode ser revertido em quatro anos. Ainda existem mais de 10 000 escolas que nem água ou luz têm, então não é possível imaginar ter equipamentos esportivos decentes.

No último ciclo olímpico, o governo gastou 2 bilhões de reais. O resultado foram apenas dezessete medalhas. Não é necessário melhorar o critério de investimento em atletas para obter resultados superiores?
O critério tem de ser o da meritocracia. Os atletas contemplados com apoio estatal tinham um desempenho compatível com o investimento nas competições preparatórias, antes de a Olimpíada começar. Mas nem todos conseguiram fazer o sucesso esperado em Londres. O nosso critério continuará sendo o do mérito. Quem teve bom desempenho receberá mais recursos públicos do que aqueles que decepcionaram.

Os dirigentes têm culpa desse fraco desempenho?
Há necessidade de mudanças urgentes na estrutura das confederações. Democratização e profissionalismo são as palavras-chave. É preciso limitar o tempo de mandato dos dirigentes a três ou quatro anos, com direito a apenas uma reeleição. Esse modelo força o dirigente a perseguir bons resultados, porque, não dispondo da entidade a vida inteira, ele tem de ser vencedor em um prazo curto. Sem bons resultados, a eleição seguinte fica em risco.

De que instrumentos o governo dispõe para garantir que os dirigentes não se perpetuem no poder?
O governo quer condicionar os benefícios públicos para as confederações ao cumprimento de critérios de transparência, modernização e democracia. Vamos criar um índice nacional que valorizará as entidades que modernizarem sua gestão. Estas serão beneficiadas por patrocínio de estatais, isenções fiscais e transferência direta de recursos. As que não cumprirem as metas não terão o apoio do governo.

Ricardo Teixeira renunciou à presidência da CBF, mas foi contratado como consultor da Copa. José Maria Marin, que sucedeu a ele, acumula salários como presidente da CBF e do comitê organizador da Copa. A gestão do futebol pós-Teixeira avançou?
A CBF sempre resistiu a receber dinheiro público porque isso levaria a uma fiscalização dos órgãos do estado. Sem dinheiro público, não há como fiscalizar, o que faz da entidade uma caixa-preta. Mas essa situação não tem mais como perdurar. A CBF também precisará adotar uma gestão mais democrática e transparente.

A venda de bebidas será mesmo liberada nos Jogos?
A legislação vai autorizar a venda de cerveja. Não há por que não vender. Não tem sentido fazer um evento desses sem cerveja nos estádios. Diz o Mario Filho, em seu livro O Negro no Futebol Brasileiro, que os ingleses que vieram trabalhar na fábrica de tecidos de Bangu e foram construir o estádio de Moça Bonita começaram a obra pelo bar. A partir do bar fizeram o estádio. É uma relação histórica no esporte, tanto aqui como no exterior. Você vai à Europa e aos Estados Unidos e há um consumo controlado – a polícia britânica prendia quem estava bêbado e incomodando. Então o Brasil tomou uma decisão equilibrada.

O Tribunal de Contas da União aponta uma série de suspeitas sobre as obras da Copa. O que é possível fazer para que Copa e Olimpíada não se tornem um festival de desvio de dinheiro público?
Onde há recursos da União o controle é rigoroso, envolvendo ministérios, a Controladoria-Geral da União e os tribunais de contas. Até agora. Cada centavo em recurso público tem sido rigorosamente controlado. Onde houver desvio não haverá mais verbas da União até que o problema seja resolvido. Esse controle não pode ser afrouxado.

Quando se pensa no legado permanente que ficará para o Brasil, terá valido a pena sediar as duas competições?
Todo estudo de consultoria privada, como a Fundação Getulio Vargas e a Ernst & Young, afirma que os dois eventos vão gerar 16 milhões de empregos e o acréscimo ao PIB será de 0,4% ao ano até 2019. Haverá ampliação dos investimentos públicos e, principalmente, dos privados. Ainda temos a estimativa de aumento da arrecadação tributária, a modernização de equipamentos e a revitalização de setores essenciais da economia. A participação do esporte no PIB brasileiro vai crescer. As construtoras brasileiras vão adquirir tecnologia que poderá ser aproveitada no setor público e no privado. A qualidade dos serviços na área de telecomunicações vai melhorar muito. Será também uma oportunidade de o Brasil aprimorar o que já faz com eficiência e superar as deficiências históricas. Esses eventos impõem ao país a superação. Então o Brasil deve olhá-los com otimismo.

O senhor foi o relator do Código Florestal na Câmara, quando desagradou à esquerda ao defender os produtores rurais. A mesma esquerda reclama agora do projeto de privatizações do governo. A ideologia ainda é um obstáculo ao crescimento do Brasil?
Tenho muito orgulho do meu trabalho no Código Florestal. Tudo o que fiz foi pelo interesse do país. Se eu, como deputado e como brasileiro, não defendesse os interesses da pequena, da média e da grande agricultura do meu país, não me sentiria bem. Produzir alimentos é um dever essencial para o interesse público, principalmente dos pobres, que precisam de comida em grande quantidade, acessível e a baixo custo. O Brasil também precisa do campo para equilibrar as contas externas, que têm se mantido no azul graças ao dinamismo da agricultura. O que eu fiz é o que todos os países fizeram. A antiga União Soviética defendeu sua agricultura, a França defende sua agricultura, os Estados Unidos defendem sua agricultura e eu defendi nossa agricultura. Temos de equilibrar a preservação do meio ambiente com a produção agrícola. Foi o que procurei fazer. Nem todos compreenderam. Há gente que só vê um lado da questão. É da mesma natureza a crítica ao pacote de privatização da presidente Dilma. Esses críticos não enxergam que a presidente objetiva arrancar os obstáculos ao crescimento do país.

Fonte: http://www.esporte.gov.br/ascom/noticiaDetalhe.jsp?idnoticia=9396

L! Opina: Tem que ser além de 2016


Anunciado na semana passada pela presidente Dilma Rousseff, o projeto Brasil Medalhas 2016 representa um avanço, mas não pode ser visto como um fim. É apenas uma parte das transformações de que o país precisa. Para o Brasil tornar-se de fato uma potência olímpica, é indispensável uma política nacional de esportes, a construção de um sistema que seja sólido e tenha êxito em duas dimensões: a prática esportiva de base e o esporte de alto rendimento. Uma não existe sem a outra.
Não há país olimpicamente forte se não houver a massificação do esporte. A própria presidente, em seu discurso, reconheceu a necessidade de investimentos na base. Pois a mudança está nas mãos dela. Seu governo precisa fazer cumprir o que recomenda a Organização Mundial de Saúde: incluir um mínimo de cinco horas semanais de prática esportiva no currículo escolar. Este é, inclusive, compromisso de legado da Olimpíada do Rio para rede municipal de ensino. Que não apenas tem de ser cumprido, mas que deve ser ampliado para todo o país.
Ao Brasil cabe qualificar e reconhecer os professores de educação física, integrar os programas federais, estaduais e municipais de educação e estimular competições estudantis nos três níveis. São elas que vão fazer surgir os novos talentos. Aqueles que passarão às disputas de alto rendimento. E que, neste ponto, entrarão na segunda dimensão do sistema.
A proposta do governo é ambiciosa nesta área. Mas balança entre a virtude da intenção e o equívoco do tempo. Foca nos atletas, através dos programas de bolsas, assegurando uma vida digna e condições ideais de treinamento. Foca na compra de equipamentos e na construção de centros de excelência para os esportes olímpicos e paralímpicos. Medidas que podem e devem até gerar avanços pontuais no quadro de medalhas. Mas que para dar resultados significativos devem ir muito além de 2016, transformando o Brasil num país verdadeiramente esportivo.
Das federações e confederações cabe ao governo exigir contrapartidas. É fundamental termos uma gestão profissional em que os dirigentes possam ser remunerados, respondam a conselhos independentes e tenham metas objetivas de resultados a serem atingidas como requisito básico para receber os recursos públicos. E os que não cumpri-las devem sair.
A hora é de decidirmos onde queremos chegar. Não queremos ser uma Espanha ou uma Grécia, que jamais conseguiram repetir sequer os resultados medianos que obtiveram em Barcelona-1992 ou Atenas-2004, deixando à mostra a fragilidade de uma política oportunista de uma Olimpíada só. Melhor ser um Reino Unido, que a cada quatro anos evolui em suas conquistas encerrando, em Londres, sua melhor participação nos Jogos da era moderna. Estamos atrasados. Mas a partida pode não estar perdida. Vontade política de fazer é o início da virada.

Leia mais no LANCENET! http://www.lancenet.com.br/minuto/LANCE-Opina_0_776322368.html#ixzz26pAKCng0 

sábado, 25 de agosto de 2012

Os números que importam 1 – quadro de medalhas


Por MarceloBarreto

O quadro de medalhas é uma ficção. Não existe prêmio para quem fica em primeiro, nenhum país é apontado campeão das Olimpíadas. Até mesmo o critério de botar quem ganhou um ouro à frente de quem conquistou dez pratas é uma convenção, com seu grau acordado de arbitrariedade. O único objetivo dessa invenção é dar uma ideia geral do desempenho por países. Tomado ao pé da letra, o quadro só serve para alimentar as piadas fáceis em 140 caracteres e nas capas dos jornais populares ou para, distorcido, sustentar a demagogia oficial.

É tão limitado dizer solenemente que o Brasil teve seu maior desempenho em número de medalhas (e o segundo melhor em ouros) quanto o deboche de apontar os países supostamente exóticos, como o Irã ou a Jamaica, que ficaram à frente. O quadro de medalhas não tem relação direta com o papel de uma nação na geopolítica mundial – e se tivesse, seria mais justo usar para isso o ranking do IDH do que o do PIB, porque é mais fácil gastar com esporte quando se tem problemas básicos como saúde e educação bem encaminhados.

Mas não é assim que funciona. O resultado de um país no quadro de medalhas deriva de uma equação complexa, com itens que vão desde o mais básico, como o investimento em esportes de base, até o mais difícil de controlar, como o desempenho dos atletas nas finais olímpicas. Na Austrália, antes mesmo do fim dos Jogos, a diminuição no número de medalhas já tinha causado um debate sobre a crise no esporte escolar. No Cazaquistão, que tem entre suas estratégias para ganhar mais ouros aceitar a naturalização de atletas russos flagrados no antidoping, a imprensa estatal festejou o sucesso em Londres. Cabe a cada país decidir o que é mais importante, o esporte de base ou o quadro de medalhas.

Mesmo aceitando o quadro como medida de sucesso, a forma mais justa de avaliar o desempenho de um país é compará-lo com ele mesmo. E por esse critério, o Brasil está patinando. Desde Atlanta 1996, quando começou o último ciclo olímpico antes da lei Agnello-Piva, o número de medalhas conquistadas mudou muito pouco: 15 em 96, 12 em 2000, 10 em 2004 (com cinco ouros, a melhor marca até hoje), 15 em 2008 e 17 em 2012. E elas vieram praticamente dos mesmos esportes: judô, vela, vôlei e vôlei de praia subiram ao pódio em todas essas edições; atletismo, natação e futebol, em todas menos uma. Mesmo o surgimento de novos medalhistas (taekwondo em Pequim, ginástica artística, boxe e pentatlo moderno em Londres) acaba compensado negativamente pela saída do quadro de modalidades antes vencedoras, como o basquete e o hipismo.

Esse cenário não combina com a evolução da arrecadação de recursos da lei Agnello-Piva. De R$ 17 milhões em 2000, as confederações passaram a ter R$ 150 milhões de recursos das loterias este ano. Seria errado, esportiva e matematicamente, esperar que o desempenho no quadro de medalhas crescesse na mesma proporção. Ainda é preciso compensar décadas de falta de investimento no esporte de base. Mas já são dois ciclos olímpicos completos. Tempo suficiente para fazer, por exemplo, o que a ginástica artística conseguiu: em 96, só uma atleta se classificou para os Jogos, e se machucou antes de competir; de lá para cá, o Brasil conseguiu levar uma equipe feminina duas vezes, botou atletas nas finais em três edições seguidas e agora chegou à medalha de ouro. Uma evolução que pode parecer lenta para quem só pensa no número de ouros, pratas e bronzes, mas que foi constante.

Para ganhar medalhas, primeiro é preciso ter candidatos a medalhas – e o Brasil ainda produz poucos deles. Hoje, apenas duas confederações conseguem fazer um trabalho completo nesse sentido. O judô trouxe a Londres 14 atletas para as 14 categorias em disputa (só Japão e França conseguiram o mesmo); sete deles chegaram às quartas de final; quatro ganharam medalhas. O vôlei classificou o máximo possível de equipes, duas na quadra e quatro na praia; três delas chegaram às quatro finais em disputa; quatro subiram ao pódio, em todas as modalidades. Juntas, essas confederações responderam por mais da metade das medalhas do Brasil em 2012.

Não por acaso, judô e vôlei estão entre os esportes mais praticados em clubes e escolinhas pelo país afora. Muito disso, é claro, aconteceu sem interferência direta das confederações. Mas elas souberam aproveitar essa base, e dela tirar o material humano necessário para o esporte de alto rendimento. Nenhum outro esporte olímpico tem essa relação tão bem resolvida no Brasil. A vela merece crédito pela constância no pódio, mas já começa a sofrer com problemas de renovação (judô e vôlei estão sempre disputando títulos nas categorias de base). A natação está no caminho, mas ainda precisa fazer mais finalistas para consolidar o trabalho.

Se mais confederações seguirem esses exemplos, a participação do Brasil no quadro de medalhas vai crescer. Mas nem por isso ele deixará de ser uma ficção, uma medida inexata. O Brasil só terá o que comemorar se o número de ouros, pratas e bronzes for o resultado de uma grande evolução na nossa cultura esportiva. Ficar à frente do Irã e da Jamaica é o de menos. O número que realmente importa é o de crianças e jovens que – talvez inspirados pelo sucesso de Sarah Menezes ou Fernanda Garay – tenham no esporte uma chance de se expressar como cidadãos.

Fonte: http://sportv.globo.com/platb/marcelobarreto/2012/08/13/os-numeros-que-importam/

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Desabafo olímpico parte 2. Pós olimpíadas


Hoje o post não tem nada a ver com tênis. Tem a ver com esporte. Com Brasil. Com RIo 2016

Ontem tive o prazer de entrevistar para meu programa de radio o judoca Felipe Kitadai

Mais uma vez saí de uma entrevista com um atleta brasileiro impressionado com sua força, alma guerreira e triste pela condição que nosso país dá a um atleta.

Felipe Kitadai foi medalha de bronze em Londres na categoria 60 kg e nas lutas mostrou muita garra, muito brio e amor ao nosso país. Ontem na entrevista fiquei muito impressionado com a força de um atleta que não tem tantos recursos.

Tenho escutado que os judocas tiveram a melhor preparação da história do nosso esporte. Pode ser verdade. Eles ganharam treinamento, estrutura, ajuda para competir bem. Ok, muitooooo legal. Mas e o dia a dia do atleta? Quem paga?

Ontem quando ele entrou no estúdio e começou a falar que não tinha patrocínio pessoal e que devia tudo ao João Derli que o ajudou muito, ao clube Sogipa e a federação caiu a ficha do nosso esporte. Não adianta apenas dar estrutura aos nossos atletas. Eles têm que ter um pouco de dinheiro para sobreviver e viver.

Temos que lembrar que eles são campeões olímpicos, medalhistas olímpicos e basicamente são sustentados pelos pais. 

Fico claramente indignado quando vejo que esses grandes atletas são cobrados e esquecidos. Perguntamos se tinha melhorado a situação dele e de resposta veio um sorriso envergonhado. Com vergonha provavelmente do nosso país.

Ele não fala mas é uma vergonha um atleta olímpico não ter uma condição legal no nosso país. Estamos prestes a ter uma olimpíada e nossos atletas precisam ter condição. E deixo claro que condição não é apenas estrutura de treino. Condição é poder ter um dinheiro para viver o dia a dia e não depender apenas do pai e mãe.

Com tudo isso tenho que dizer que fiquei encantado com a força desse garoto de 23 anos que quer muito estar no Rio 2016 e seu brilho nos olhos mostra o quanto ama seu país e o que faz.
Acorda esporte brasileiro. 

Acordem patrocinadores que gostam de investir 1 ano antes dos jogos. Peguem esse menino e caminhem com ele nessa linda e dura caminhada até os jogos no Rio de Janeiro.

Fonte: http://espn.estadao.com.br/post/276900_desabafo-olimpico-parte-2-pos-olimpiada

sábado, 18 de agosto de 2012

Harvard esportivo da costa do Mar Negro


Em Sochi vai aparecer sua Harvard, mas esportiva. A apresentação da Universidade Olímpica Internacional russa e seu programa de educação para gestão esportiva superior teve lugar em Londres. Aqui na capital dos jogos olimpicos a universidade assinou dois acordos com as principais universidades britânicas - Universidades de Brunel e de Sheffield.
A idéia da universidade na russia, onde se formariam os gerentes esportivos, apareceu alguns anos atrás. Em 2009, ela adquiriu suas formas reais com a decisão do Governo da Rússia. Os fundadores da universidade foram o Comitê Olímpico da Rússia, o comitê Organizativo Sochi-2014 e companhia Interros, que está construindo em Sochi uma parte de instalações desportivas para os Jogos de Inverno. Exatamente os próximos Jogos de Inverno na costa do Mar Negro foram o principal motivo que levou à criação de universidade. Mas houve outras razões, salienta o chefe da Interros Vladimir Potanin:

"Quando tivemos a idea da universidade de Sochi, era um pouco ambiciosa - Harvard Russo para esportes. A universidade não deveria ter muita concorrência dentro do seu nicho. Há várias grandes instituições internacionais que cooperam com o Comitê Olímpico, e que têm ideias sérias. Com os dois, a nossa Universidade assinou hoje um acordo. No entanto nesta esfera não há concorrência forte. E esperamos que a nossa universidade vá liderar nesta área. Será uma marca de Harvard esportiva."

Educação na nova universidade não será barata. Um ano letivo para os futuros gerentes esportivos vai custar um milhão de rublos (pouco mais de 30 mil dólares). Tal preço elevado é devido ao elevado nível de ensino. Afinal, as figuras de topo de esportes e negócios serão convidados para lecionar para os alunos. No entanto, numa fase inicial para atrair mais alunos à escola, Vladimir Potanin, promete oferecer 20 bolsas.

A nova universidade em 2013 vai receber os primeiros alunos, quando será construído o edifício escolar e campus. Naquela altura, vai se formar o corpo docente, que pode ser sujeito a alterações.

Assume-se que na Universidade Internacional, 50 por cento do seu corpo docente vão ser os russos, o resto - especialistas estrangeiros. A mesma proporção será dos alunos. Embora as variações sejam possíveis, salientaram os organizadores da universidade.

Fonte: http://portuguese.ruvr.ru/2012_07_30/83442204/

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Os exemplos que o Brasil pode mirar para se tornar uma potência olímpica


Por José Antônio Lima

Encerrados os Jogos Olímpicos de Londres, o quadro de medalhas de 2012 mostra uma vitória imponente dos Estados Unidos. São 104 pódios, com 46 ouros, superando com folga a China (88 pódios e 38 ouros), resultado que devolve aos EUA a supremacia olímpica que vinha sendo conquistada desde 1996, quando as ex-repúblicas soviéticas deixaram de competir em conjunto, e foi interrompida em Pequim-2008 – quando a China superou os americanos em ouros (51 a 36), mas não no total de medalhas. Não faltam analistas para dizer que os americanos são o exemplo a ser seguido para o esporte olímpico brasileiro, mas a realidade é um pouco mais complexa. Para isso, precisamos compreender como funciona o esporte de alto rendimento nos EUA e em outras potências.

Os defensores do Estado mínimo adorariam acreditar que a hegemonia norte-americana possa ser entendida como o triunfo de um sistema sem Ministério do Esporte e no qual há pouquíssimo dinheiro do governo federal envolvido, mas as coisas não são bem assim.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que os bons resultados esportivos só surgem acompanhados de investimentos bem feitos. No caso do esporte olímpico, a eficiência não é exclusividade do dinheiro privado. Diversas potências olímpicas contam com grandes investimentos estatais. Os casos mais óbvios são os da China e da Rússia, mas não é preciso recorrer aos exemplos extremos do país comunista e da principal herdeira da União Soviética para ver dinheiro público aplicado no esporte. O governo da Coreia do Sul, quinta colocada em Londres (28 medalhas, 13 de ouro), investe pesado no setor. As grandes apostas são três imensos centros de treinamento no qual atletas com mais de 15 anos podem se dedicar em tempo integral ao esporte. Na Alemanha (44 medalhas, 11 de ouro), o esporte de alto nível recebe dinheiro do governo federal, de loterias federais e das Forças Armadas. Na Itália (28 medalhas, 8 de ouro), o Comitê Olímpico recebeu, apenas para o orçamento de 2012, mais de 400 milhões de euros. Na Austrália (35 medalhas, 7 de ouro), os três níveis de governo gastam cerca de 2 bilhões de dólares por ano com esporte, a maior parte construindo e mantendo instalações esportivas públicas, mas também financiando atletas de elite.

Em segundo lugar, cabe ponderar a pequena participação do governo federal dos Estados Unidos no esporte. Isso ocorre porque a Constituição norte-americana é muito clara ao deixar a educação sob a tutela dos governos estaduais. Assim, são os estados (e em menor medida os governos municipais) os responsáveis por construir e manter equipamentos esportivos e, principalmente, subsidiar escolas e universidades públicas. Boa parte desses subsídios é usada para pagar salários de treinadores de alto nível, reduzir as mensalidades e conceder bolsas de estudos para atletas, estratégias usadas para atrair jovens esportistas. Essas instituições públicas, em conjunto com algumas instituições independentes (geralmente ligadas a fundações religiosas) e privadas, são a principal fonte de talentos para o esporte profissional norte-americano. Dos sete campeões olímpicos dos EUA em provas individuais no atletismo em Londres, cinco estudaram em universidades públicas, um em universidade privada e outro em uma instituição independente.

A grande importância do dinheiro público no esporte norte-americano não significa que os investimentos privados são irrelevantes. Tanto pessoas físicas como empresas contribuem muito para o país ser a maior potência olímpica. O esporte e a competição esportiva são conceitos arraigados na sociedade americana. Doadores privados são os responsáveis por sustentar, por exemplo, o Centro Aquático do Norte de Baltimore, onde começou a nadar aos dez anos Michael Phelps, o maior medalhista olímpico de todos os tempos. Mais de 30 empresas são as responsáveis por patrocinar, e sustentar integralmente, o Comitê Olímpico dos EUA.

O que esses exemplos dizem ao Brasil? Como mostrou recente reportagem da revista CartaCapital, o foco do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) hoje em dia são os atletas de elite, aqueles com potencial para subir ao pódio nos Jogos. O COB, e os governos municipais, estaduais e federal, se preocupam muito pouco em estabelecer políticas públicas para popularizar e democratizar a prática esportiva, gerando benefícios para a sociedade e ampliando a base de futuros medalhistas. O  COB pensa a curto prazo. No domingo 12, o superintendente da entidade, Marcus Vinícius Freire, afirmou que um exemplo a ser seguido pelo Brasil é o do Cazaquistão. O governo cazaque investiu, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, 20 milhões de dólares no levantamento de peso, no ciclismo e no boxe para tornar o país referência nessas modalidades. Conseguiu 13 medalhas nos Jogos, nove nesses três esportes, sendo seis de ouro. Chegou ao 12º lugar no quadro de medalhas com um investimento rápido, porém sem reflexos positivos para a sociedade.

O Brasil, sede dos Jogos de 2016, tem uma série de bons exemplos para seguir. Pode copiar dos europeus e sul-coreanos a forma correta de tratar os atletas de elite; dos australianos, pode aprender como combinar o investimento no alto rendimento e no esporte como política pública; dos norte-americanos, como atrair a iniciativa privada para o negócio e como engajar a sociedade no incentivo aos jovens atletas. Enquanto o Estado brasileiro, em todos os níveis, continuar negligenciando a educação e, com ela, o esporte, e o COB mantiver seu foco apenas na conquista de medalhas, continuarão abastecendo as críticas daqueles que desejam afastar o Estado de tudo, incluindo do esporte, uma atividade capaz de reduzir a criminalidade, melhorar a saúde da população, unir a sociedade e formar pessoas.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/exemplos-brasil-morar-tornar-potencia-olimpica/

Os números que importam


por Marcelo Barreto

O quadro de medalhas é uma ficção. Não existe prêmio para quem fica em primeiro, nenhum país é apontado campeão das Olimpíadas. Até mesmo o critério de botar quem ganhou um ouro à frente de quem conquistou dez pratas é uma convenção, com seu grau acordado de arbitrariedade. O único objetivo dessa invenção é dar uma ideia geral do desempenho por países. Tomado ao pé da letra, o quadro só serve para alimentar as piadas fáceis em 140 caracteres e nas capas dos jornais populares ou para, distorcido, sustentar a demagogia oficial.

É tão limitado dizer solenemente que o Brasil teve seu maior desempenho em número de medalhas (e o segundo melhor em ouros) quanto o deboche de apontar os países supostamente exóticos, como o Irã ou a Jamaica, que ficaram à frente. O quadro de medalhas não tem relação direta com o papel de uma nação na geopolítica mundial – e se tivesse, seria mais justo usar para isso o ranking do IDH do que o do PIB, porque é mais fácil gastar com esporte quando se tem problemas básicos como saúde e educação bem encaminhados.

Mas não é assim que funciona. O resultado de um país no quadro de medalhas deriva de uma equação complexa, com itens que vão desde o mais básico, como o investimento em esportes de base, até o mais difícil de controlar, como o desempenho dos atletas nas finais olímpicas. Na Austrália, antes mesmo do fim dos Jogos, a diminuição no número de medalhas já tinha causado um debate sobre a crise no esporte escolar. No Cazaquistão, que tem entre suas estratégias para ganhar mais ouros aceitar a naturalização de atletas russos flagrados no antidoping, a imprensa estatal festejou o sucesso em Londres. Cabe a cada país decidir o que é mais importante, o esporte de base ou o quadro de medalhas.

Mesmo aceitando o quadro como medida de sucesso, a forma mais justa de avaliar o desempenho de um país é compará-lo com ele mesmo. E por esse critério, o Brasil está patinando. Desde Atlanta 1996, quando começou o último ciclo olímpico, o número de medalhas conquistadas mudou muito pouco: 15 em 96, 12 em 2000, 10 em 2004 (com cinco ouros, a melhor marca até hoje), 15 em 2008 e 17 em 2012. E elas vieram praticamente dos mesmos esportes: judô, vela, vôlei e vôlei de praia subiram ao pódio em todas essas edições; atletismo, natação e futebol, em todas menos uma. Mesmo o surgimento de novos medalhistas (taekwondo em Pequim, ginástica artística, boxe e pentatlo moderno em Londres) acaba compensado negativamente pela saída do quadro de modalidades antes vencedoras, como o basquete e o hipismo.

Esse cenário não combina com a evolução da arrecadação de recursos da lei Agnello-Piva. De R$ 17 milhões em 2000, as confederações passaram a ter R$ 150 milhões de recursos das loterias este ano. Seria errado, esportiva e matematicamente, esperar que o desempenho no quadro de medalhas crescesse na mesma proporção. Ainda é preciso compensar décadas de falta de investimento no esporte de base. Mas já são dois ciclos olímpicos completos. Tempo suficiente para fazer, por exemplo, o que a ginástica artística conseguiu: em 96, só uma atleta se classificou para os Jogos, e se machucou antes de competir; de lá para cá, o Brasil conseguiu levar uma equipe feminina duas vezes, botou atletas nas finais em três edições seguidas e agora chegou à medalha de ouro. Uma evolução que pode parecer lenta para quem só pensa no número de ouros, pratas e bronzes, mas que foi constante.

Para ganhar medalhas, primeiro é preciso ter candidatos a medalhas – e o Brasil ainda produz poucos deles. Hoje, apenas duas confederações conseguem fazer um trabalho completo nesse sentido. O judô trouxe a Londres 14 atletas para as 14 categorias em disputa (só Japão e França conseguiram o mesmo); sete deles chegaram às quartas de final; quatro ganharam medalhas. O vôlei classificou o máximo possível de equipes, duas na quadra e quatro na praia; três delas chegaram às quatro finais em disputa; quatro subiram ao pódio, em todas as modalidades. Juntas, essas confederações responderam por mais da metade das medalhas do Brasil em 2012.

Não por acaso, judô e vôlei estão entre os esportes mais praticados em clubes e escolinhas pelo país afora. Muito disso, é claro, aconteceu sem interferência direta das confederações. Mas elas souberam aproveitar essa base, e dela tirar o material humano necessário para o esporte de alto rendimento. Nenhum outro esporte olímpico tem essa relação tão bem resolvida no Brasil. A vela merece crédito pela constância no pódio, mas já começa a sofrer com problemas de renovação (judô e vôlei estão sempre disputando títulos nas categorias de base). A natação está no caminho, mas ainda precisa fazer mais finalistas para consolidar o trabalho.

Se mais confederações seguirem esses exemplos, a participação do Brasil no quadro de medalhas vai crescer. Mas nem por isso ele deixará de ser uma ficção, uma medida inexata. O Brasil só terá o que comemorar se o número de ouros, pratas e bronzes for o resultado de uma grande evolução na nossa cultura esportiva. Ficar à frente do Irã e da Jamaica é o de menos. O número que realmente importa é o de crianças e jovens que – talvez inspirados pelo sucesso de Sarah Menezes ou Fernanda Garay – tenham no esporte uma chance de se expressar como cidadãos.

Fonte: http://sportv.globo.com/platb/marcelobarreto/2012/08/13/os-numeros-que-importam/

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

No pódio do amadorismo


Por José Cruz

O Brasil esportivo, mesmo com recordes de medalhas, deixa os Jogos de Londres reprovado no vestibular do pódio olímpico. E a principal derrota não é dos atletas, mas do governo federal, que fracassou na política de financiar o alto rendimento a partir de 2003, ignorando os elementares investimentos na iniciação e no desporto escolar.

Temos espetaculares 33 milhões de estudantes, mas é potencial ainda desprezado devido à falta de projetos a partir da prática de educação física, ponto de partida para criar nos jovens a cultura do esporte. Mesmo assim, houve investimentos: R$ 2 bilhões no último ciclo olímpico, mas no alto rendimento. Foi o dobro do aplicado na delegação enviada aos Jogos de Pequim, em 2008.

Em 2016, o Rio de Janeiro receberá a histórica Olimpíada. Mas, amadoristicamente, a sexta economia mundial ainda convive com a incerteza sobre os rumos para tornar o Brasil país olímpico. E isso é grave, não só sob a perspectiva de conquistas de pódios como de desperdícios públicos. Porque uma coisa são os jogos, as disputas; outra são os negócios do esporte. Nesse binômio também patinamos. Pelo sistema adotado, o Estado financia os custos da festa, e a iniciativa privada contabiliza o lucro. Assim como no Pan-Americano de 2007, a disputa político-institucional é desequilibrada e onera o cofre público.

A partir de 2003, o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, fez a opção por investir no esporte. Criou um ministério específico e turbinou orçamentos. Sancionou a Lei de Incentivo ao Esporte, a Bolsa Atleta, determinou que as oito estatais — Banco do Brasil, Caixa, Petrobras, Infraero, Casa da Moeda, Correios, Eletrobras e BNDES — aumentassem o patrocínio para 22 modalidades. Além disso, pagou a conta maior dos Jogos Pan-Americanos, com custo total de R$ 3,4 bilhões, cujo legado ficou no projeto.

Mesmo com investimentos bilionários, o governo não fez o elementar entrosamento entre as pastas da Educação, Esporte e Saúde; não dotou as escolas de quadras esportivas nem aparelhou as instalações existentes; ignorou a valorização dos professores, ponto de partida para a elementar prática da educação física escolar.

Os tradicionais Jogos Escolares e Universitários, que em outros tempos eram fonte de identificação de talentos, saíram da área federal e passaram à competência do Comitê Olímpico. Sem vínculo pedagógico ou compromisso de governo, tornaram-se eventos de calendário, apenas.

É nesse contexto de fartura financeira e escassez de programas que repercute o desempenho brasileiro nos Jogos de Londres. Sem exageros, a  colocação do país no quadro de medalhas não surpreende. O próprio presidente do Comitê Olímpico, Carlos Nuzman, fez previsão ao afirmar que nos igualaríamos à Olimpíada de Pequim, quando ganhamos 15 medalhas.

Como em Jogos anteriores, as apostas de pódios ficaram concentradas em nomes ou equipes tradicionais. E, se esses falhassem, crescia a pressão sobre os demais atletas. E tais apostas não levavam em consideração que outros países também se desenvolveram e preparam as delegações. A Coreia do Sul é o principal exemplo.

Houve novidades, como a evolução feminina no judô, pódio no boxe e, principalmente, o ouro de Arthur Zanetti, nas argolas. Mas nenhum desses resultados está vinculado a uma política de governo, o que agrava o quadro para 2016. Afinal, o que significa o futebol no contexto olímpico brasileiro? Para o evento no Rio de Janeiro, a difícil meta é colocar o Brasil entre os 10 primeiros do ranking mundial.

As medidas para chegar a essa difícil meta estão atrasadas. Porém o governo precisa fixar, antes, um perfil hierárquico na desordem institucional em que se confundem as competências do Ministério do Esporte e do Comitê Olímpico.

Afinal, o Estado deve se envolver com o esporte de rendimento ou isso é competência da iniciativa privada? Dinheiro público deve contemplar atletas ou ser destinado ao desporto escolar, prioritariamente, como determina a Constituição Federal?

Os Jogos, enfim, provocam emoções, incentivam o patriotismo e movimentam a economia. Mas o Brasil olímpico ainda está no pódio do amadorismo.

Fonte: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/8/13/no-podio-do-amadorismo

Investimento maior não melhora desempenho do Brasil nos Jogos


País participou de menos finais olímpicas do que em Pequim e ganhou menos ouros do que em 2004

Por Jorge Luiz Rodrigues

LONDRES. Apesar de a União ter investido R$ 1,76 bilhão no ciclo olímpico de 2009-2012 no esporte de alto rendimento e de a quantia ter sido mais de seis vezes superior aos R$ 280 milhões aplicados no período de 2001 a 2004, o Brasil terminou os Jogos de Londres com três medalhas de ouro, duas a menos do que há oito anos em Atenas. O recorde de cinco vitórias, obtido na Grécia, não foi batido, e mostra que o país e o Comitê Olímpico Brasileiro não estão fazendo direito o dever de casa para a Rio-2016.

Neste domingo, na coletiva com o balanço da participação do país em Londres, realizada na Casa Brasil, ficou claro que o superintendente executivo do Comitê Olímpico Brasileiro, Marcus Vinícius Freire, e o consultor americano da entidade, Steve Roush, têm mais diferenças do que a baixa fluência do americano em português.

Um slide passado apressadamente por Marcus Vinícius e tratado sem a devida importância, mas decisivo para a análise da participação, foi o do número de finais olímpicas alcançadas pelos atletas brasileiros: 35 em Londres-2012, contra 41 de Pequim-2008. Em 16 de julho passado, o americano Roush havia dito claramente, durante entrevista no Centro Nacional de Esportes Crystal Palace, que "se o número de finais for o mesmo, será muito desapontador”. Nem cresceu, tampouco permaneceu. Em vez disso, caiu.

Roush havia dito aos jornalistas que o crescimento do número de finais iria manter o COB no rumo para atingir a meta maior, que é a de acabar os Jogos Rio-2016 entre os Top 10, ou dez primeiros no quadro do total de medalhas. E acrescentou: “nosso foco é nos finalistas, e melhorar aqueles números de Pequim. O fator de jogar em casa faz diferença nas finais; isso é importante na Rio-2016. Queremos mais finais em Londres”.

Roush obviamente não estava na mesa da coletiva de ontem, em que o COB divulgou o mais investimento de sua história numa fase final: mais de R$ 11,7 milhões nos últimos 90 dias da preparação da delegação brasileira para os Jogos, sendo R$ 3,25 milhões pelo aluguel por 30 dias do Centro Nacional de Esportes Crystal Palace. Curiosamente, em Pequim-2008, os números divulgados foram apenas dos últimos 30 dias: R$ 4,5 milhões.
- Nosso foco para 2016 será saltar para o Top 10 do quadro geral de medalhas, mas, para isso, precisaremos acertar algumas coisas que não saíram conforme planejávamos. Foi o caso do atletismo e da natação. Mas saímos com a sensação do dever cumprido – disse o dirigente.

Marcus Vinícius falou mais do que o presidente Carlos Arthur Nuzman, que teve de ausentar para resolver “uma questão da passagem da bandeira” na cerimônia de encerramento. Obviamente, exaltou o recorde de medalhas (16, até aquele momento, pois, mais tarde, Yane Marques ganharia um bronze inédito no pentatlo moderno). Os 17 pódios superaram os 15 de Atlanta-1996 e de Pequim-2008. Porém, medalhas inéditas surgiram apenas na ginástica masculina e no pentatlo moderno.
- A meta (15 medalhas) foi atingida – afirmou Marcus Vinícius, que, no entanto, admitiu que há esportes que preocupam, ao mostrar um slide em que chamou de “pontos de atenção” as várias decepções, como o atletismo e a natação. – Pontos de atenção para 2016 são o atletismo sem medalha; a natação, com apenas duas medalhas... Acho que pode ter mais, mas ganhou apenas com (Cesar) Cielo e Thiago (Pereira). O hipismo e o taekwondo não tiveram medalhas; o basquete e o futebol feminino nem às semifinais chegaram; e o handebol masculino nem se classificou. A vela ganhou apenas uma medalha (de bronze) e chegou a três regatas de medalha. Pode ser mais. A ginástica artística não conseguiu nenhuma final.

O Brasil garantiu 17 medalhas em Londres, mas apenas três foram de ouro, com cinco pratas e nove bronzes. Assim, nos três ciclos olímpicos da Lei Piva (desde 2001), os totais de ouro e de pódios são, respectivamente, de sete e 42, mas a média de vitórias em relação aos totais anteriores de Atenas e Pequim somados caiu de quatro para 3,66, embora a média de pódios tenha subido de 12,5 para 14. Como se vê, o impacto inicial dos investimentos oriundos apenas das loterias é inegável, mas a evolução dos resultados não ocorreu em relação ao investimento que vem crescendo vertiginosamente desde 2001.

Na entrevista, Marcus Vinícius Freire questionou números levantados pelo GLOBO junto ao Governo, ao ministério do Esporte e às estatais sobre o investimento de R$ 1,76 bilhão da União no esporte de alto rendimento durante o ciclo olímpico. Disse que o COB só recebeu no ciclo olímpico R$ 331 milhões da Lei Piva, descontados impostos e investimentos no esporte escolar (10%) e universitário (5%). No entanto, por mais de uma vez, usou como parâmetros de comparação os investimentos da Grã-Bretanha, sem descontos e com valor irreal.
- A Grã-Bretanha investe mais de 1 bilhão – disse, mencionando um número equivocado.

Na verdade, o investimento total do time anfitrião de 2012 no ciclo olímpico e paralímpico (o COB não inclui o paralímpico), entre 2009 e 2012, foi de 264 milhões de libras (R$ 834 milhões), segundo dados confirmados ao GLOBO pela Associação Olímpica Britânica (BOA) e pela Embaixada em Brasília. Assim, os britânicos ganharam 65 medalhas e terminaram em terceiro lugar no quadro, com 17 a mais do que em Pequim-2008 (em quarto lugar, com 47). Foi uma autêntica surra em matéria de administração do dinheiro público: os britânicos ganharam quase quatro vezes mais medalhas do que o poder público brasileiro investiu no alto rendimento brasileiro, somando patrocínios de estatais, bolsa-atleta, Lei Piva e Lei de Incentivo ao Esporte.

No país em que a política esportiva fica em último lugar, a estagnação dos resultados leva a uma constatação: é preciso rapidamente focar na criação de um Plano Nacional de Desporto (previsto na Lei 9615 de 1998); dar clareza aos critérios para patrocínios do Plano de Comunicação do Governo Federal; e minimizar a desigualdade de critérios de distribuição da Lei Piva. O atletismo, que recebeu R$ 58 milhões da Caixa no ciclo olímpico, e a natação, que amealhou R$ 45,9 milhões dos Correios, ainda pegam R$ 3,2 milhões anuais, cada, da Lei Piva, bem mais do que 13 entidades que nem patrocinadores possuem.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/olimpiadas2012/investimento-maior-nao-melhora-desempenho-do-brasil-nos-jogos-5768027#ixzz23QkoSDf3 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Projeto do Reino Unido quer incluir jovens nos esportes


Boris Johnson, prefeito de Londres, disse que as escolas do país já contam com duas horas diárias de educação física para incentivar os jovens.

Londres - O ministro da Cultura britânico, Jeremy Hunt, anunciou nesta quinta-feira que o governo implementará um projeto, logo após o final dos Jogos Olímpicos de Londres, para que mais jovens tenham acesso e se dediquem ao esporte.

Em declarações à emissora britânica ''BBC'', o ministro disse que o evento olímpico representa ''um momento mágico para o esporte britânico. Sabemos que os heróis dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos que vemos na televisão estão inspirando jovens por todo o país, e nós, do governo, queremos aproveitar isso'', afirmou.

Boris Johnson, prefeito de Londres, disse, em entrevista coletiva realizada nesta quinta-feira, que as escolas do país já contam com duas horas diárias de educação física para incentivar os jovens.

Segundo Johnson, o governo ''compreende totalmente o interesse pelo esporte após os Jogos Olímpicos, assim como as vantagens sociais e econômicas que o evento levou ao país''.

O prefeito londrino antecipou os planos para organizar, no Parque Olímpico, competições de rugby, atletismo, hóquei e mergulho em nível internacional nos próximos anos.

''Além dos planos atuais, também organizaremos incontáveis séries de eventos esportivos globais'', comentou Johnson. 

Fonte: http://exame.abril.com.br/economia/mundo/noticias/projeto-do-reino-unido-quer-incluir-jovens-nos-esportes

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ministro vê quedas de Teixeira e Havelange como senha para democratizar poder no esporte


Por Gustavo Franceschini

A comprovação, por parte da Justiça suíça, de que Ricardo Teixeira e João Havelange receberam propina no escândalo de corrupção da Fifa acabou com a desculpa de que não haviam provas contra os cartolas. Em entrevista ao UOL Esporte, o ministro do Esporte Aldo Rebelo evitou atacar diretamente a dupla, mas deixou claro que é contrário ao modelo de perpetuação de dirigentes no poder que vigora no Brasil.

“Acho que as instituições que governam o esporte no Brasil e o futebol precisam passar por um processo de democratização e de modernização compatíveis com a evolução da sociedade e as exigências do próprio esporte. Acho que os resultados, em havendo democratização e profissionalização, vão aparecer”, disse Aldo Rebelo, em entrevista concedida na residência oficial do embaixador do Brasil no Reino Unido, onde fica mais alguns dias para ver os Jogos Olímpicos. 

O hoje ministro foi uma figura importante no longo processo de queda de Ricardo Teixeira. Ele era o relator da CPI que, em 2000, esmiuçou as atividades ilícitas do então presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e encontrou os primeiros indícios da ligação dele com o escândalo da ISL, ex-parceira da Fifa, que o derrubou no começo deste ano.

Depois da CPI, no entanto, Aldo aos poucos mudou de postura. A voracidade das críticas ao cartola diminuiu ao passar dos anos. Ao assumir a função de ministro do Esporte no ano passado, ele adotou um discurso político ao falar de Teixeira. Mesmo com os dois cartolas fora de cena, ele evita um ataque mais duro.

Para o político, o escândalo ainda não manchou a imagem da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, que tiveram Teixeira e Havelange como presidente do Comitê Organizador e garoto-propaganda, respectivamente. “Não creio [que tenha manchado], porque a organização e o êxito da Copa não dependem dessas pessoas. Ela depende da capacidade dos organizadores de tocar as suas ações e suas iniciativas e me parecem que estão fazendo isso no Brasil. Acho que a Copa do Mundo é muito maior do que esses episódios para ser afetada por eles”, disse Rebelo.

Confira a seguir a entrevista completa:

UOL Esporte – O que o senhor sentiu da Olimpíada em Londres até o momento?
Aldo Rebelo - Eu destaco em primeiro lugar o ambiente de Londres com a Olimpíada. Apesar dos problemas que todos nós testemunhamos de trânsito, comunicação e de recepção. A cidade foi contagiada por um ambiente de tolerância, de confraternização entre as pessoas. Os ingleses estão muito mais risonhos e prestativos, inclusive os guardas dão mais informações. É preciso louvar o esforço que a cidade faz, o governo e sua prefeitura, de oferecer aos visitantes um ambiente agradável de eficiência. Por essa razão é que eu relevo os problemas que testemunhamos. Para nós, é muito melhor que registrar os problemas e tomar como lição para que eles sejam reduzidos no Brasil.

UOL Esporte – Qual foi exatamente o problema da comunicação que o senhor sentiu?
Aldo Rebelo – Além do trânsito, a telecomunicação, o sinal de celular e o wifi apresentaram algumas dificuldades em alguns momentos.

UOL Esporte – Recentemente essa discussão sobre qualidade de telefonia móvel ganhou grande proporção no Brasil. O país vai saber lidar com isso até 2016?
Aldo Rebelo - O Brasil é muito deficiente nessa área. Nós temos planos do governo e da própria iniciativa privada para reduzir os problemas que temos, que são grandes e importantes para a população nas grandes cidades e para as empresas, para os profissionais que precisam disso para o seu trabalho. Temos de cuidar muito bem disso.

UOL Esporte – Em termos de esporte, é possível imaginar o Ministério do Esporte cobrando mais de perto esportes como a natação, que receberam verba pública mas fizeram tempos abaixo de suas próprias melhores marcas aqui em Londres?
Aldo Rebelo - Os ingleses também esperavam muito de um ciclista consagrado e ele não teve o desempenho esperado [Mark Cavendish]. Mesmo seleções como a Espanha e o Uruguai [no futebol], sobre as quais se tinham grandes expectativas. Essas coisas têm essa explicação mais geral. O resto depende de planejamento muito detalhado, muito minucioso, que envolve toda a preparação do atleta, a participação dele em um circuito internacional de competições, que o deixe em condições de disputar a Olimpíada já conhecendo os possíveis adversários que vai enfrentar, as condições da competição, o equipamento. O trabalho que estamos fazendo com o COB, com as confederações, com o ministério da defesa e com os próprios clubes é para que nossos atletas tenham até 2016 a experiência necessária, a participação em competições e o apoio com a criação do bolsa-técnico. O Brasil não pode ser apenas o país-sede, que dê exemplo de acolhida, de organização, mas precisa que o quadro de medalhas mostre o Brasil em sua condição de sede, com o status de país-sede.

UOL Esporte – E o Brasil conseguirá fazer uma Olimpíada melhor que a de Londres, como sugeriu a presidente Dilma?
Aldo Rebelo - O Brasil tem condições de oferecer organização, engenharia civil, sustentabilidade, telecomunicações, segurança... Tudo isso está planejado, tanto para Copa como para a Olimpíada. Os recursos já estão previstos. Além da realização material dos dois eventos, nós também vemos a oportunidade do Brasil mostrar ao mundo uma referência no plano espiritual. Um país acolhedor, onde os visitantes estrangeiros não sejam apenas respeitados ou tolerados, mas que eles sejam queridos, as pessoas sejam acolhidas com afeto e carinho, recepcionadas com toda a generosidade que o ser humano é capaz de oferecer. Nós, independentemente da nacionalidade, da religião, da cor da pele das pessoas, vamos tratar todo mundo de forma muito acolhedora.

UOL Esporte – Falando da parte organizacional, qual é a situação do Velódromo, que custou R$ 14 milhões no Pan e deve ser demolido porque não atende as exigências do COI?
Aldo Rebelo - É que as exigências, não só técnicas, mas a dimensão dos equipamentos que acolhem o Pan e as Olimpíadas são muito diferentes. O COI tem exigências muito maiores não só do Pan para as Olimpíadas como de uma Olimpíada para outra. Aqui, o ministro local me dizia isso, que ele teve de fazer muitas coisas diferentes da Olimpíada de Pequim. Ele teve discussões sérias com o COI, porque eles usaram os parâmetros de Pequim e tiveram de alterar. O caso do Velódromo eu não sei exatamente se é essa a razão, mas provavelmente o gabarito com as referências técnicas para as Olimpíadas estão muito além daquilo que foi feito para o Pan.

UOL Esporte - Mas nós já sabíamos lá atrás que os parâmetros eram distintos. Quando se faz uma obra para o Pan e tem de fazer outra para a Olimpíada não dispendemos dinheiro desnecessário em uma delas?
Aldo Rebelo - Em alguns casos pode ser. Em outros, nos talvez não tivéssemos no orçamento para o Pan a disponibilidade de fazer o equipamento já para os Jogos Olímpicos.

UOL Esporte - Quando ganhou a candidatura, a solução era a reforma do Velódromo, mas isso não aconteceu e agora não temos tempo hábil. Outra coisa que atrasou foi a matriz de responsabilidade fiscal, prevista para março e ainda pendente. Por que as coisas de 2016 demoram tanto a sair?
Aldo Rebelo - Porque é diferente da Copa, que é praticamente privada. Nela, o Governo Federal entra com recursos de empréstimo para a construção dos estádios e a mobilidade urbana. A Olimpíada é um empreendimento com recursos públicos, que tem participação do Estado do Rio em uma proporção muito grande, e da cidade do Rio. Todos eles com uma estrutura própria para tratar da questão dos Jogos Olímpicos. Além disso, tem a Autoridade Pública Olímpica, que em tese é a autoridade maior, o consórcio entre os três entes federativos para tratar dos Jogos.

UOL Esporte - Não tem como agilizar isso?
Aldo Rebelo – E não é exatamente isso que a gente tem tentado fazer? Nosso esforço não é esse?

UOL Esporte - Mas vocês têm conseguido? O senhor está satisfeito com a agilidade?
Aldo Rebelo - Não, gostaríamos de estar em um estágio mais adiantado. Mas temos segurança de que nesse estágio nós cumpriremos o calendário de entrega das obras dentro do tempo necessário para os Jogos.

UOL Esporte – Ministro, há cerca de um mês a Justiça suíça divulgou que Ricardo Teixeira e João Havelange foram condenados por corrupção. Isso te surpreendeu?
Aldo Rebelo – Bem... [faz uma pausa] Nós, de certa forma, levantamos informações na investigação da CPI da Câmara em 2000. E já haviam ali fatos relacionados com essa investigação que a Justiça suíça fez, concluiu e divulgou. Então de certa forma podia, na própria CPI ou a partir da CPI, haver uma previsão de que esses fatos, embora não totalmente esclarecidos na época, poderiam ser esclarecidos mais adiante.

UOL Esporte - Então, não te surpreendeu?
Aldo Rebelo - A questão não é surpreender ou não surpreender, a questão é investigar ou não investigar, e a investigação foi feita.

UOL Esporte – De que maneira isso afeta 2014 e 2016, já que Ricardo Teixeira presidia o Comitê Organizador e João Havelange foi garoto-propaganda da Rio 2016? A imagem dos eventos fica manchada?
Aldo Rebelo - Espero que não fique, porque o país acolhe a Copa do Mundo que é organizada pela Fifa. Me parece que a própria Fifa, pelo menos ultimamente, manifestou interesse de que essa investigação fosse concluída. O próprio presidente da Fifa tomou providências para reduzir a exposição da instituição a fatos semelhantes.

UOL Esporte – Mas são figuras centrais nos dois eventos. A imagem já não está afetada?
Aldo Rebelo - Não creio, porque a organização e o êxito da Copa não dependem dessas pessoas. Ela depende da capacidade dos organizadores de tocar as suas ações e suas inciativas e me parecem que estão fazendo isso no Brasil, com o Governo procurando apoiar e ajudar naquilo que está ao seu alcance. Acho que a copa do mundo é muito maior do que esses episódios para ser afetada por eles.

UOL Esporte – O Governo errou ao escolher essas pessoas como seus representantes?
Aldo Rebelo - A Copa do Mundo seria realizada no Brasil ou nos outros países que se candidataram e tentaram atraí-las, independentemente desses fatos e episódios. O que eu creio é que o futebol brasileiro deva adotar como lição, não para corrigir, mas muito mais para prevenir episódios semelhantes, é modernizar a gestão e a estrutura das entidades que organizam não só o futebol, mas todo o esporte do país. Tem de democratizar institucionalmente essas entidades, os critérios e mecanismos de escolha dos dirigentes, profissionalizar a gestão dessas instituições e dos próprios clubes brasileiros, onde há anacronismos inaceitáveis do ponto de vista democrático, como nós vemos em alguns clubes. Dou o exemplo do meu clube do coração, que é o Palmeiras, que precisa se modernizar e democratizar. São instituições importantes para o país. Tem de ter uma institucionalidade compatível com o que está acontecendo na sociedade.

UOL Esporte – O senhor é favorável ao projeto de lei que tramita na Câmara e sugere um limite para o número de mandatos para dirigentes esportivos?
Aldo Rebelo - Sou. Aliás, sempre fui.

UOL Esporte – Mas o senhor hoje lida com cartolas que não concordam com ele, ou ao menos não seguem o que ele prega.
Aldo Rebelo – Eu respeito a posição dos dirigentes e o seu ponto de vista, da mesma forma que espero que eles respeitem também o meu.

UOL Esporte – Nessa linha de raciocínio, que prejuízos o esporte tem quando no topo da organização, no comando do COB, está uma pessoa que vai completar 21 anos de poder em 2016?
Aldo Rebelo - Os lucros e os prejuízos qualquer jornalista inteligente pode verificar. Eu não vou personificar a questão. Vou tratar como uma tese. Acho que as instituições que governam o esporte no Brasil e o futebol precisam passar por um processo de democratização e modernização compatíveis com a evolução da sociedade e com as exigências do próprio esporte. Acho que os resultados, em havendo democratização e profissionalização, vão aparecer. Não é apenas por uma questão de participação, de direito democrático. É também por isso, mas é pelo que pode ser obtido. Pela valorização dos clubes, de suas marcas, da ampliação da renda, do aumento da confiança dos parceiros nas instituições que gerem o esporte e o futebol. Eu só citei benefícios. Não vejo que prejuízo poderia trazer para o esporte ou para os clubes. 

Fonte: http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2012/07/31/ministro-ve-quedas-de-teixeira-e-havelange-como-senha-para-democratizar-poder-no-esporte.htm

Parque dos Atletas reabre com várias escolinhas


Espaço na Barra é o primeiro construído para os Jogos a ficar pronto

Por Elenice Bottari

RIO - Uma das maiores áreas de lazer da Barra, o Parque dos Atletas, na Avenida Salvador Allende, em frente ao Riocentro, foi reaberto na terça-feira ao público depois de ficar dois meses reservado às exposições da Rio+20, realizada em junho passado. Com 123 mil metros quadrados e capacidade para até cem mil pessoas, o parque foi o primeiro espaço construído para as Olimpíadas de 2016 a ficar pronto. Inaugurado em agosto de 2011, o lugar foi palco do último Rock in Rio.
— Ele é um legado antecipado. Foi entregue cinco anos antes das Olimpíadas e já é o novo point da região. Está sempre cheio, especialmente no fim de semana, quando recebe muitas famílias — diz o subprefeito da Barra e de Jacarepaguá, Thiago Mohamed.
De acordo com a subprefeitura, cerca de mil moradores de diversas faixas etárias estão inscritos nas escolinhas de futebol, vôlei, tênis e caminhada orientada oferecidas pela Secretaria de Esporte e Lazer no local. O parque tem entrada franca e amplo estacionamento. Além do espaço de lazer, dispõe de duas quadras poliesportivas, um campo de futebol de grama sintética, dois muros de escalada, um parque infantil, dois conjuntos de aparelhos de ginástica (um deles voltado a atletas da terceira idade), bebedouros e vestiários com chuveiros.
O espaço faz parte de um conjunto de obras e de ações ecológicas da prefeitura pela recuperação do sistema lagunar da Baixada de Jacarepaguá. Em dezembro, ele voltará a ser fechado para o show de Madonna, previsto para o início daquele mês. No ano que vem, a área de lazer deverá receber, mais uma vez, uma nova edição do Rock in Rio.
— O parque é um espaço multiuso, para sediar grandes eventos. Ele foi concebido para receber estruturas diferentes. Sendo assim, os equipamentos são aparafusados para que possam ser desmontados — explicou Mohamed.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/parque-dos-atletas-reabre-com-varias-escolinhas-5651888#ixzz22J07Cdvl 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Novos Cielos de Limeira aposta em crowdfunding para ajudar mais crianças


Entre as recompensas para os participantes está o maiô usado pelo campeão olímpico no Mundial de Dubai/2010 para ganhar duas medalhas de ouro

São Paulo – O Novos Cielos, projeto do Instituto Cesar Cielo, criado pelo campeão olímpico, bicampeão mundial e recordista mundial dos 50 m livre, para o desenvolvimento da natação brasileira, está mergulhando fundo no modelo crowdfunding (financiamento coletivo) para ajudar 40 participantes do programa, em Limeira (SP). Para atingir as metas, o Instituto Cesar Cielo conta com a parceria do ComeçAki, site pioneiro em financiamento coletivo via redes sociais e comunidades online. O projeto Novos Cielos – Limeira pode ser acessado pelo endereço comecaki.com.br/novoscielos. Cielo está em Londres para um camping de treinamento no Crystal Palace e disputa o Troffeo Sette Colli, em Roma, de 14 a 16.

O Instituto Cesar Cielo foi criado em 2010 para atuar no desenvolvimento da natação nacional apoiando projetos de base e de alto rendimento, como o Novos Cielos, de formação, e o Projeto Rumo ao Ouro (PRO 16), para nadadores de elite.

O projeto Novos Cielos – Núcleo Limeira, no interior de São Paulo, conta com a parceria da ANEL (Associação de Nadadores e Esportistas de Limeira), que tem o objetivo de oferecer às crianças carentes da cidade a oportunidade de aprender, participar e competir na natação. Atualmente, são 180 as crianças que nadam na Piscina Municipal Alberto Savoi, cedida pela Prefeitura de Limeira para as aulas do Novos Cielos. O objetivo do crowdfunding é obter recursos para atender 40 das 180 crianças beneficiadas.

“As crianças que já têm aulas diárias poderão participar de competições e festivais. A ideia do projeto é ajudar no crescimento e popularização da natação, ainda mais num ano olímpico. Espero voltar de Londres com o bi olímpico nos 50 m livre e contribuir mais ainda para a natação ser popular”, afirma Cielo. A Olimpíada será de 27 de julho a 12 de agosto. Cielo reforça que o programa oferecerá inscrições grátis em torneios regionais, transporte, alimentação, hospedagem e uniforme para as crianças. “Com a parceria com o ComeçAki temos tudo para arrecadar uma boa verba e ampliar o Novos Cielos”, acrescenta.

Maiô e outras recompensas para quem aderir

Além de ajudar mais crianças a integrar um programa de educação pelo esporte, os participantes do crowdfunding no ComeçAki terão recompensas. O projeto Novos Cielos – Limeira pode ser acessado pelo endereço comecaki.com.br/novoscielos.

Quem fizer doações de R$ 15,00, receberá um agradecimento de Cesar Cielo nas redes sociais, via email e também na página oficial do projeto.

Com R$ 30,00, o doador recebe foto autografada das crianças. Com R$ 65,00, além da foto autografada o participante recebe touca do Instituto Cesar Cielo.

As doações de R$ 90,00 incluem todas as recompensas anteriores e mais um kit de 7 fotos das crianças do Novos Cielos – Limeira.

Contribuições de R$ 140,00 incluem camiseta do Instituto Cesar Cielo e, de R$ 300,00, camiseta e touca assinadas por Cesar Cielo.

Aos que abraçarem a causa com R$ 1.500,00, a recompensa traz, ainda, uma camiseta da seleção brasileira de natação assinada por Cesar Cielo e nadadores do PRO16.

O primeiro que contribuir com R$ 10.000,00 leva o prêmio especial – o maiô usado por Cielo no Mundial de Dubai/2010, em que o velocista ganhou duas medalhas de ouro em provas individuais, os 50 m e os 100 m livre, e duas de bronze com os revezamentos 4×100 m livre e 4×100 m medley do Brasil.

Fonte: http://patrociniobrasil.blogspot.com.br/2012/07/novos-cielos-de-limeira-aposta-em.html?spref=tw

sábado, 28 de julho de 2012

Salto para o padrão-ouro


Por Flávia Tavares

O navio "Itaquicê" aportou em Los Angeles naquele 1932 com 82 orgulhosos atletas brasileiros, 81 rapazes e uma moça, que representariam o país na Olimpíada. O brilho em seus rostos era produto do suor que brotou da venda que foram obrigados a fazer, nas paradas do navio ao longo de um mês de jornada, de parte das 55 mil sacas de café embarcadas no cargueiro. O lucro serviria para custear sua ida aos Estados Unidos, no contexto do pós-crash de 1929. Quem não tinha habilidades financeiras não desembarcou. Apenas 67 deles participaram daqueles jogos.

Oito décadas depois, o Brasil está hoje em sua 21ª participação nos Jogos Olímpicos, agora em Londres. Os 258 atletas que daqui partiram não tiveram de negociar commodities para financiar sua performance. O que não os torna menos mercadores de si mesmos. Do entusiasmo com a brincadeira de pega-pega no pátio da escola ao alto rendimento de um índice olímpico, os brasileiros que escolhem a carreira de atleta ainda precisam de muito talento para obter, manter e fazer render o dinheiro destinado ao esporte.

"O esporte evolui constantemente. Mas falta ao Brasil decidir o que quer, elaborar uma política pública nacional para o esporte", diz Paula Gonçalves, a Magic Paula, ex-integrante da seleção brasileira de basquete, hoje diretora-executiva do projeto Esporte e Cidadania da Petrobras, que gerencia o patrocínio da estatal para cinco modalidades olímpicas. Enquanto essa política não vem, a construção da carreira de atleta depende de um fluxo de responsabilidades, comandos e investimentos. Aos papéis do atleta, que são treinar, competir e, preferencialmente, ganhar, somam-se os de diversas esferas. As escolas, com seus professores de educação física e a tarefa de despertar o prazer do jogo; as universidades, que em muitos países completam a formação do desportista; os clubes, ambiente onde esses potenciais se desenvolvem; as federações e confederações, que lidam com o profissional já lapidado; e os patrocinadores, estatais ou privados, que bancam tudo isso.

Se, por um lado, o esporte brasileiro nunca teve tanto dinheiro, por outro, em alguns pontos dessa corrente há lacunas que ainda impedem que o país seja uma potência olímpica e seus atletas, profissionais completos. Além disso, por ter um perfil piramidal, em que poucos chegam ao topo, a carreira de atleta deixa pelo caminho uma multidão sem acesso ao maior filão dos recursos. Há, porém, um marco fundamental, que começou a mudar as perspectivas do esporte brasileiro: a lei 10.264, de 2001, que estabelece que 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais do país sejam repassados ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que fica com 85%, e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), destino do restante. Em 2012, o COB estima em R$ 145 milhões a parte que lhe caberá, nos termos da lei.

O repasse desses recursos para as confederações de esportes olímpicos depende de uma série de critérios, entre eles, o desempenho do Brasil nas diferentes áreas - as modalidades com maior destaque recebem mais dinheiro. "É uma questão de planejamento. As confederações mais bem estruturadas, que têm melhores resultados, gestão e um plano bem traçado para manter e aumentar esse sucesso, são nosso foco", explica Marcus Vinicius Freire, ex-jogador de vôlei da seleção de prata de 1984 e atual superintendente executivo de esportes do COB. Assim, o atletismo, o vôlei e os esportes aquáticos, por exemplo, devem receber R$ 3,2 milhões cada neste ano. E o levantamento de peso e o tiro com arco, R$ 1,3 milhão. Cabe a cada confederação definir como esse dinheiro será usado, a partir de um plano quadrienal apresentado ao COB. "Essa grana vai, principalmente, para a organização de campeonatos e para a equipe olímpica. E os outros milhares de atletas que praticam o esporte, como ficam?", pergunta Mauro Silva, presidente da Confederação Brasileira de Boxe, que recebeu R$ 2 milhões.

Mesmo quem é destinatário de uma fatia generosa do bolo reconhece que pode faltar fermento. O presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Roberto Gesta, costuma usar uma frase para ilustrar as dificuldades do atletismo brasileiro: "Nem se eu tivesse R$ 300 milhões conseguiria melhores resultados. O dinheiro não vale de nada sem um investimento na base". É opinião corrente que o Brasil tarda em cuidar dos atletas mirins, da formação de desportistas, da base da pirâmide. "O legado da Copa de 2014 e da Rio 2016 tem de ser social e tem de ser o impacto nas escolas", corrobora Hortência Marcari, ex-jogadora de basquete e diretora de seleções femininas da Confederação Brasileira de Basquete (CBB).

Na Escola Municipal Silveira Sampaio, no Rio, a opção foi não esperar por soluções externas. Com abnegação, uma equipe de 12 professores de educação física treina atletinhas de 10 a 15 anos em modalidades como atletismo, levantamento de peso, futsal, tênis de mesa, handbol, basquete e vôlei. "Juntamos dinheiro para levar os alunos aos campeonatos, pagar um tênis para quem não tem, comprar o lanche. Tudo porque acreditamos que o esporte molda o caráter das crianças, desperta a liderança e a sociabilidade", diz Roberto Prata, um desses professores.

Resultado: a Silveira Sampaio é campeã dos Jogos Estudantis há 12 anos consecutivos. E já colocou atletas seus na seleção brasileira de atletismo e de levantamento de peso. "Foi aqui que eu recebi todo meu treinamento, virei um profissional graças à dedicação desses professores", conta Douglas Santos Costa, de 22 anos, hoje levantador de peso da seleção. Os alunos que se destacam no atletismo na escola são direcionados para a equipe do projeto Lançar-se para o Futuro, patrocinado pela Brasil Foods, e comandado pelo treinador Paulo Servo, ex-professor da Silveira Sampaio. Mas a escola praticamente não tem apoio. Para tentar conquistar patrocínios e escapar da burocracia por ser uma escola pública, os professores criaram uma ONG, a Cia. Cadê. Ainda sem sucesso.

Iniciativas isoladas como essa podem não ser suficientes. O próprio COB reconhece que talvez falte tempo para alimentar o fluxo de novos atletas em todas as modalidades olímpicas até 2016. Embora 10% dos recursos da lei 10.264 sejam voltados para o esporte educacional, que inclui a organização de olimpíadas escolares e universitárias e a mobilização de 2 milhões de crianças por ano, o comitê considera que seu papel seja o de lidar com os atletas de ponta e não necessariamente com sua formação. "Estamos centrados em tornar o Brasil uma das dez potências olímpicas e ganhar entre 24 e 32 medalhas até 2016. Para isso, precisamos nos concentrar no alto rendimento dos esportes em que já temos tradição e nos que temos potencial de medalhas", diz Marcus Vinicius Freire. Assim, os gastos do COB com o alto rendimento no quadriênio olímpico de 2005 a 2008 foram de US$ 250 milhões. De 2009 a 2012, devem ser de US$ 350 milhões, e de 2013 a 2016, de US$ 770 milhões. "Mas a base é responsabilidade do governo e dos clubes", acrescenta.

O Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, vem chamando para si essa tarefa. Além de procurar talentos entre os associados, estabeleceu uma parceria com os 44 Centros Educacionais Unificados (CEUs) de São Paulo, por meio do projeto Brincando de Atletismo, desde 2008, para capacitar professores da rede pública e treinar crianças de 8 a 12 anos. Um evento em dezembro de cada ano celebra a iniciativa - em 2011, 150 crianças de seis CEUs competiram entre si. E em 2012 a parceria se expandiu, com a Prefeitura de Jundiaí. "Queremos ter 400 alunos competindo em dezembro deste ano. Se conseguirmos tirar daí um atleta olímpico, já teremos cumprido nossa missão", diz o treinador Cláudio Castilho, supervisor técnico de atletismo competitivo do Pinheiros.

Paralelamente à formação, o clube investe nos atletas de ponta das 16 modalidades olímpicas que abriga. Desde 2003, traçou planos para voltar à elite do atletismo, por exemplo. Naquele ano, o Pinheiros estava em 29º lugar no ranking do Troféu Brasil, principal competição do atletismo brasileiro. Agora, é vice-campeão pelo terceiro ano consecutivo, perdendo apenas para a equipe BMF&Bovespa, há dez no topo. Os melhores resultados também atraíram patrocinadores e, assim, o dinheiro do clube, que é uma entidade não lucrativa, passou a chegar cada vez mais ao atleta. "Hoje, o atleta bom e excelente vive do esporte, está profissionalizado. O mercado também se abriu para treinadores estrangeiros, capacita melhor os brasileiros e os atletas têm acesso à tecnologia de ponta do esporte", diz Castilho. "Mas ainda falta muito. O discurso do COB não condiz com a prática, o planejamento estratégico deles não chega a nós e o esporte vive um eterno recomeçar, vive de glórias isoladas."

Com a ajuda de outro marco no fluxo de investimentos no esporte - a Lei de Incentivo ao Esporte, de 2007, que permite que as empresas destinem 1% do imposto de renda a projetos esportivos -, o clube conseguiu aprovar R$ 72 milhões em projetos de suas modalidades e já captou R$ 37 milhões. Além disso, conta com os patrocínios da Sabesp, Bradesco, 3M, Asics, Sky e Banco Espírito Santo. "Nem todo esse dinheiro precisa chegar às mãos dos nossos 2,9 mil atletas, mas sim à estrutura que os cerca", explica Suzana Pasternak, ex-esgrimista e assessora para gestão de recursos ao esporte do clube. Essa estrutura inclui nutricionistas, endocrinologistas, psicólogos, softwares de medição de desempenho, 52 mil metros quadrados de quadras esportivas e duas piscinas olímpicas. "O atleta precisa se concentrar no esporte, não pode estar permanentemente preocupado com recursos, com burocracias", afirma Paula. "Ter esse apoio todo permite que a performance seja o foco."

É pensando nisso que tanto sua diretoria, que cuida dos recursos da Petrobras, quanto as do Pinheiros, do Minas Clube, do Flamengo, pioneiros na gestão esportiva no Brasil, tentam deixar um legado, um formato de administração do dinheiro que chega ao esporte, para que também beneficie a ponta da corrente, o atleta, em forma de salário e estrutura. Em seu escritório em São Paulo, a equipe de Paula gerenciou em 2011 quase R$ 15 milhões da Petrobras. Para isso, criou fluxogramas de 15 procedimentos diferentes, que acompanham a preparação do atleta de alto nível nas competições nacionais e internacionais - contratação de treinadores, viagens, compra de material etc. "Queremos criar um modelo completo, porque cada trâmite é muito dinâmico. Temos que prestar contas precisas ao patrocinador e ao Ministério do Esporte, mas também temos de atender às demandas do atleta, que mudam constantemente, por causa de lesões ou de provas que surgem ao longo do ano", afirma Paula.

Com processos mais bem acabados, as empresas tendem a se sentir à vontade para investir. O presidente da CBAt, Roberto Gesta, dá a dimensão de como essa mentalidade tem evoluído. Conta que, em uma competição em Manaus, em 1987, conversando com um amigo que era diretor da Coca-Cola, pediu permissão para colocar o logotipo da marca nas pistas de corrida, sem que a empresa tivesse de gastar nada. Era uma forma de mostrar ao mundo que uma multinacional se interessava pelo esporte. Funcionou. Um mês depois, o atletismo brasileiro conquistava seu primeiro patrocínio, do Açúcar União.

Hoje, a atração de corporações dispensa truques como esse. A própria Coca-Cola é uma das que bancam diversas iniciativas. "Queremos vincular nosso nome aos temas relevantes para o público, especialmente o adolescente, que são a música e o esporte. Por isso, temos um histórico de parcerias com a Copa e a Olimpíada", diz Michel Davidovich, diretor geral da Coca-Cola para a Copa 2014 e a Rio 2016.

A bebida esportiva da Coca-Cola, a Powerade, também patrocina uma equipe de dez jovens talentos do atletismo e criou o Powerade Team, com pretensões de emplacar alguns deles já nas equipes de 2016. Uma dessas atletas é Tamara de Souza, de 18 anos, campeã juvenil sul-americana de heptatlo, 6ª melhor do mundo no ranking juvenil e 23ª melhor do mundo no adulto. Seu interesse pelo esporte começou ainda quando menina, na Cidade de Deus, no Rio, pelo futebol, mas "só chutava o chão". Aos poucos, foi migrando para o salto em distância e, enfim, para o heptatlo. Hoje, conta com uma equipe composta de treinadora, nutricionista, fisioterapeuta, médico e psicólogo para desenvolver seu potencial. "Com tudo isso, posso sonhar em beliscar uma medalha em 2016", diz a garota.

O dinheiro público, porém, ainda é o energético mais abundante. Se é fato que o Estado se tornou o principal financiador do esporte de alto rendimento, também está claro que não há uma política de alcance nacional estabelecida para o desenvolvimento do esporte no país.

O que há é o patrocínio das estatais. Hoje, oito empresas financiam 22 modalidades: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras, Infraero, Correios, Eletrobras, BNDES, Casa da Moeda. Os Correios têm contratos com os esportes aquáticos e o tênis, nos quais investiu, entre 2011 e 2012, R$ 16 milhões e R$ 5,7 milhões, respectivamente. A Caixa prevê investimentos de R$ 62,5 milhões, entre 2011 e 2012, na preparação das seleções de atletismo, ginástica, luta e de esportes paraolímpicos. A Petrobras banca, por meio do projeto Esporte e Cidadania, 110 atletas, divididos entre boxe (26), esgrima (16), levantamento de peso (20), remo (24) e taekwondo (24), com bolsas-auxílio que variam entre R$ 3,1 mil e R$ 1.250. O total do investimento deve ultrapassar os R$ 18 milhões em 2012. A estatal, que deve levar 20 atletas a Londres, mantém ainda projetos de esporte educacional e de memória do esporte.

Essa memória tem uma guardiã. A professora e psicóloga Katia Rubio, coordenadora do Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano, da Universidade de São Paulo (USP), elabora, há 12 anos, um censo do esporte olímpico brasileiro, com patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ao grupo de pesquisa, interessa entrevistar todos os atletas que foram a uma edição olímpica, mesmo que não tenham competido ou que tenham participado em modalidade de demonstração. Cerca de 700 entrevistas já foram realizadas. "Uma conclusão é que o brasileiro é formado para ir à Olimpíada, não para ganhar", diz Katia.

Por aqui, o discurso afirmativo, vencedor, é visto como arrogância. Com isso, dos 1.677 atletas que foram aos jogos, apenas 281 voltaram com medalhas - quando se desdobra o número de 91 medalhas entre os representantes de esportes coletivos. A professora diz que aquela imagem do atleta que treina descalço, nos fundos do Brasil, ainda é mais representativa do esporte nacional do que a do sucesso de um Cesar Cielo. "Nunca tivemos tanto dinheiro, mas o atleta nem sempre tem acesso a ele. Conheço casos de atletas que venderam sua casa, dormem no carro, para poder competir em alto nível, porque a verba está parada nas mãos da ONG que deveria ajudá-los", relata.

Não se transforma alguém em atleta de ponta em menos de dez anos. Por isso, o Brasil lida ainda com "as sobras" do modelo anterior à lei 10.264, acredita Katia. "A iniciação esportiva, hoje nas mãos dos clubes, não consegue estabelecer um elo com as universidades e, de uma maneira geral, o acesso aos clubes é muito restrito", diz. Ela se coloca entre os defensores de uma política de governo para o esporte. Por enquanto, o Ministério distribui dinheiro, as estatais fazem o mesmo e o COB gerencia o dinheiro da lei 10.264. Resultado: cada um aplica como quer, sem um plano integrado, com metas bem definidas. "Para 2016, contratamos a banda antes da festa. O Brasil acha que pode dar jeitinho em tudo, mas não tem como dar jeitinho em resultados, em desempenho." Em contrapartida, ela crê que deve haver uma guinada na mentalidade dos esportistas, tanto para um espírito mais vencedor quanto para uma preparação mais sólida para o pós-ápice.

Essa cabeça voltada para a vitória vem sendo moldada aos poucos - e pelo marketing. Um ídolo do esporte, hoje, deve ter, além de resultados, carisma para "se vender", principalmente nas redes sociais, e, assim, atrair patrocínio. "Orientamos nossos atletas a se comunicar de uma forma que aproxime os fãs e, a partir daí, podemos buscar mais financiadores e contratos de trabalho melhores", observa Alexandre Folhas, sócio-diretor da MVP Sports, empresa de marketing esportivo que gerencia as carreiras de atletas como Paula Pequeno, do vôlei, e Fabiana Mürer, do salto com vara.

Falta moldar melhor a cabeça do pós-ápice. Em diversas modalidades, aos 30 anos o atleta já está velho. Se aos 16 começou a ganhar algum dinheiro, o que é raro, teve 14 anos de carreira. Em muitos casos, tornou-se arrimo de família logo cedo. Não poupou. Não estudou. E, além de tudo, tem de lidar com o baque de parar de competir. "Comecei a me preparar para deixar o esporte dois anos antes", lembra Paula. "Os atletas pensam pouco na transição para outra carreira. O meu projeto, por exemplo, tem bolsa de estudos para os atletas. Se tem 15 que usam, é muito."

A opção mais comum dos que escolhem fazer um curso universitário é pela educação física ou fisioterapia. Mas ainda são poucos os que conseguem dar esse salto para uma nova profissão. O COB criou um departamento de educação pensando em ajudar esses atletas. É dividido em um programa de gestores, que inclui o curso avançado de gestão esportiva, em sua terceira edição; uma academia de treinadores, que capacita técnicos, tanto para a formação quanto para o alto rendimento; e em um programa de apoio a atletas, que contempla a transição de carreira. Este último começou em dezembro do ano passado e já conta com 11 atletas, entre eles Maurren Maggi e Daiane dos Santos, que acompanham histórias de transição bem-sucedidas e são treinados para fazer a sua própria. "O Comitê Olímpico Internacional valoriza essa iniciativa, mas não a exige. É uma medida nossa", diz Soraya Carvalho, ex-ginasta e coordenadora do departamento.

A expectativa de quem lida diariamente com o esporte no Brasil é que, aos poucos, uma nova geração de gestores seja formada. Essa pode ser uma maneira de melhorar a vida do atleta da base, já que ex-esportistas estariam no comando e olhariam com carinho para isso; do atleta de alto rendimento, cercado de gerentes competentes; e do próprio ex-atleta, que encontraria uma forma de permanecer ligado ao esporte mesmo sem competir.

"Ainda não temos diálogo no esporte. Cada um age por si. Mas já está pintando uma turma antenada, que conversa, pensa no macro, tanto de jovens atletas quanto de veteranos", diz Paula. Quem sabe, assim e com a ajuda do tempo, a única commodity com que o atleta brasileiro tenha de se preocupar seja a do ouro de suas medalhas.

Fonte: https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/7/27/salto-para-o-padrao-ouro