Páginas

Mostrando postagens com marcador Entrevista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevista. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sidney Levy, o homem dos números das Olimpíadas 2016


Executivo que assumiu a administração financeira dos Jogos fala dos desafios das Olimpíadas no Rio
Engenheiro de produção especializado em administração, Levy terá sob seu comando uma mega estrutura com quatro mil funcionários

Por Isabela Bastos

RIO — O Comitê Organizador Rio 2016 foi buscar no mercado financeiro o profissional que irá encabeçar a organização dos Jogos Olímpicos. Copiando a experiência de Londres 2012, que separou a gestão esportiva da administração financeira e criou uma empresa com data de validade, a Rio 2016 convidou Sidney Levy, de 56 anos, para dividir as responsabilidades do evento com Leonardo Gryner, que passa a diretor de operações. Engenheiro de produção especializado em administração, Levy é presidente do Conselho de Administração da Valid, empresa que produz papéis de segurança (como papel moeda, títulos financeiros e vouchers), e conselheiro da Cedae, da Ediouro Publicações e da Ancar Shoppings. O executivo começa a se desligar do mercado ainda este ano, para se dedicar exclusivamente à Rio 2016. Com prazo de extinção previsto para 2017, a empresa que vai gerir os jogos terá sob seu guarda-chuva uma mega estrutura com quatro mil funcionários contratados. Isso sem contar com os milhares de voluntários que receberão atletas e visitantes. Carioca de Copacabana, pai de dois filhos que moram e trabalham nos Estados Unidos, Levy terá, na semana que vem, as primeiras reuniões com membros do Comitê Olímpico Internacional, que virão à cidade para inspeções em instalações olímpicas. Na primeira entrevista como CEO da Rio 2016, realizada na quinta-feira após o carnaval, na sede do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), na Barra da Tijuca, Levy disse que seu objetivo é chegar ao fim das olimpíadas com as contas da organização zeradas.

O GLOBO: Como será a divisão de trabalho entre o senhor e Leonardo Gryner, que dirigiu a Rio 2016 até agora?
SIDNEY LEVY: O Gryner estará mais ligado às questões relacionadas ao esporte, às instalações esportivas. E eu estarei ligado às questões do orçamento, da liderança das pessoas que trabalham no comitê, das contratações, das relações com governos. É uma divisão de trabalho que vem com o crescimento da estrutura. Hoje o comitê tem 200 pessoas. Em 2016, terá quatro mil. Esse ano essa estrutura aumenta em 250 pessoas. E a medida que cresce, ela precisa ser semelhante a uma empresa. Ela tem que dar satisfação à sociedade e a melhor maneira de fazer isso é organizá-la como uma empresa. E essa é a minha contribuição ao comitê. Eu chego para fazer isso.

Em Londres, a organização dos jogos foi precedida pela criação de uma empresa que tinha data para acabar. A experiência de Londres está sendo replicada aqui?
A nossa também (tem prazo para acabar). A nossa empresa vai de 4 mil funcionários a zero. Ela acaba em 2017, após a prestação de conta de tudo o que se fez.

Qual deverá ser o maior desafio das olimpíadas no Rio: fazer os governos cumprirem os prazos das obras e projetos vinculados aos jogos ou a Rio 2016 conseguir reunir profissionais suficientes para a sua própria organização até lá?
Você só faz uma olimpíada, um evento tão grande como esse, num esforço colaborativo entre os governos e a nossa organização, dentro da própria organização. Não tem heróis além dos atletas. Não podemos vestir essa roupa. Estamos aqui para colaborar com os governos, o COI e os patrocinadores. Temos muitos profissionais nacionais e estrangeiros que tem que trabalhar juntos. Tem o arquiteto que faz o projeto da arena ou o cara que desenha o campo de golfe. Eles têm que trabalhar dentro do nosso orçamento, das regras da federação internacional, da prefeitura. Isso tudo é uma grande rede temporária, desmontada depois.

Quando o senhor fala 4 mil funcionários, o senhor não está se referindo aos voluntários dos jogos...
Não, são funcionários contratados, especialistas em cada área. Por exemplo, tem que organizar os transportes públicos. Já temos especialistas trabalhando (com a prefeitura) nessa parte da organização dos jogos, que juntamente com o COI (que tem a expertise de outros jogos) e os profissionais das empresas, concessionarias de serviços de transporte público formatam o pacote de transportes para atender ao evento esportivo.

O que mais da experiência londrina o Rio irá aproveitar?
Londres passou quatro dias aqui com todas as áreas deles explicando tudo o que eles fizeram. Mandamos para os jogos 150 pessoas. Agora passaremos uma semana só com as pessoas que cuidaram das finanças de Londres. Vamos analisar o orçamento deles linha a linha, para comparar com o nosso. Quanto gastaram e a correlação com o que a gente vai gastar.

Quando será divulgada a matriz de responsabilidades dos jogos? Já se tem uma ideia de quanto os jogos irão gastar?
No final do primeiro semestre teremos uma linha mais clara quanto a isto.

Hoje já dá para saber se os jogos olímpicos fecharão no azul ou ao menos zerados?
Os jogos não têm lucro. Não é para ter. Tem que fechar no zero a zero necessariamente. O que entrar, tem que gastar. Com certeza vamos fazer por onde. Eu estou aqui pra isso.

Mas já se sabe ao menos o que é responsabilidade do comitê organizador, dos governos e da iniciativa privada?
Estamos analisando item a item as nossas despesas. Já tínhamos feito um orçamento anterior, há bastante tempo, longe dos jogos, portanto. E isso está sendo apurado. Temos as propostas do mercado, quanto as empresas estão dispostas a pagar de patrocínio, por exemplo. É nesse esforço que estamos. O nosso papel é o seguinte: nós recebemos dinheiro de patrocinadores e da venda de ingressos. Não recebemos dinheiro de governo. E gastamos esse dinheiro em uma série de tarefas. O governo faz outra coisa. Tem que construir o maracanã, fazer BRT. Você pode considerar isso orçamento ou não. BRT é bom pra todo mundo. Muito do que nos dão não vem nem em dinheiro, mas em coisas. Vamos precisar de automóveis. Temos um acordo fechado com a Nissan. Todos os veículos dos jogos serão deles. Precisaremos de transmissão de dados, a Embratel dará. Uma parte grande do nosso orçamento não é dinheiro, são coisas (serviços). Tem três fluxos de dinheiro aqui. Um que recebemos de patrocinadores para fazer as olimpíadas. Um claramente de governo, que é para fazer metrô, que pode ser para olimpíadas ou não. E um terceiro fluxo que são as parcerias que o poder público realiza para fazer, por exemplo, a Vila Olímpica ou o Campo de Golfe.

O senhor já disse que quer que a prestação de contas dos jogos seja o mais transparente possível. Como a população poderá acompanhar os gastos?
As empresas que nos dão dinheiro têm acionistas e estão abertas na bolsa de valores. Eles dão satisfação aos seus acionistas através de uma série de regras de transparência. Pretendemos seguir as mesmas regras de transparência do mercado. Isso ainda está sendo discutido, mas será feito ainda este ano.

Haveria ainda quatro instalações esportivas dos jogos que estão sem local definido. Uma dela é o hóquei sobre a grama, que seria em São Januário. Quais são essas instalações e o que está sendo decidido para elas?
Para fazer os jogos, negociamos com 28 federações internacionais as regras e os locais onde ficará cada competição. Não vamos falar enquanto não decidirmos com as federações.

Mas o Comitê Olímpico Internacional chega ao Rio na segunda para reuniões de inspeção dos jogos...
Para a maioria das coisas, já estão batidos os martelos. Para outras não. As federações têm que concordar, que comprar a ideia. A gente prefere não trazer a discussão a público. São quatro negociações que ainda não estão fechadas.

Do total do orçamento da candidatura, que previa gastos em torno de R$ 28 bilhões, a maior parte é de obras de governos em infraestrutura e instalações. Cerca de R$ 5 bilhões são recursos do comitê organizador. O senhor acha que vai fugir muito disso?
Posso responder isso daqui a um mês e meio. Acabei de chegar e estou fazendo a revisão orçamentária linha a linha. Não quero me comprometer com número. O meu compromisso é o seguinte: que o dinheiro que venha da iniciativa privada seja integralmente consumido pelo nosso orçamento. E que não sobre e nem falte. É o que vamos fazer com o dinheiro dos patrocínios, da venda dos ingressos e dos direitos de transmissão.

Os patrocínios master dos jogos estão fechados. Serão abertas outras linhas de patrocínio até os jogos?
Estamos negociando quatro linhas de patrocínio. As concorrências já estão acontecendo. São muitas cotas de patrocínio. A arena olímpica não tem propaganda. Não pode ter. Só tem os aros olímpicos e a marca da Rio 2016. Mas se você chegar no aeroporto vai ver que a Embratel é parceria oficial dos jogos. Nas instalações só poderá usar dinheiro ou cartão Visa. O Bradesco poderá usar o símbolo nos cheques, por exemplo. Serão cerca de 50 patrocinadores ao final. O nosso trabalho é equilibrar esses valores com os valores que teremos que gastar, para fazer as olimpíadas, independente da infraestrutura.

O Rio hoje é um canteiro de obras a céu aberto. Tem alguma obra de infraestrutura que o preocupa?
Estamos muito confiantes que tudo funcionará perfeitamente bem. O prefeito está super comprometido. O governo federal nos deu umas datas para concorrência e concessão do aeroporto (internacional Tom Jobim) que acreditamos ser perfeitamente factíveis.

O senhor é um homem de mercado financeiro, conselheiro de muitas empresas. É lícito dizer que o mercado remunera muito bem o seu trabalho. O que lhe move ter aberto mão disso para vir para a Rio 2016?
É uma oportunidade única. Isso é uma coisa que só vai acontecer uma vez na minha vida. Quando sair daqui poderei voltar ao mercado e para os conselhos. Quando o Nuzzman (presidente do COB, Carlos Arthur Nuzzman) falou comigo, não precisei de cinco minutos para aceitar. Eu falei: “Não precisa falar mais nada. Já entendi”.

Qual a expectativa do senhor para a sua vida nos próximos três anos?
Eu vim trabalhar hoje e fiquei pensando que há muitos anos eu não trabalhava na quinta-feira depois do carnaval. Nessa data, nenhum conselho se reúne. E a agenda de hoje era horrível. Mas a vida é isso, fazer coisas que deem orgulho e deixar uma marca. A rotina tem sido muito dura. Eu estou aprendendo muita coisa. Tenho gastado muitas horas aqui.

Como a sua família encarou esse convite?
Minha filha mora há muitos anos nos Estados Unidos e fala comigo em inglês. Ela disse que esse seria “the coolest job”, o trabalho mais bacana, maneiro. Eu estou muito feliz.

O senhor faz algum esporte?
Eu me esforço. Mas sou muito ruim. Não foi por causa disso que vim pra cá. Quando era garoto, eu nadei e faço isso até hoje.

E quanto não está no trabalho, o que gosta de fazer?
Sou cinéfilo e leitor exagerado. Estou lendo “Antifragility” (de Nassim Taleb), que aborda um conceito que vale para as olimpíadas. Ele diz que existem instituições fortes e frágeis, mas que a instituição moderna é anti-frágil. Ela está preparada para um terremoto, o inesperado. A casa anti-frágil não é uma casa sólida, mas flexível. Vem o terremoto e ela aguenta. É o poder da resiliência.

O senhor diria que vai explorar muito esse conceito de resiliência?
Você tem que ter uma empresa com milhares de pessoas que saibam reagir na hora. Tem que ter uma organização na qual as pessoas saibam o que fazer. Um expectador passou mal, uma televisão não funcionou? Como faz? Isso é o mais importante numa organização moderna. A capacidade de se adaptar e resolver as coisas. Não supor que vai resolver os problemas todos antes. Mas que vai resolver na hora, com pessoas qualificadas para isso e com mentalidade e recursos para resolver. Vão acontecer coisas. As pessoas ficam doentes, por exemplo...


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/topico-rio-2016/sidney-levy-homem-dos-numeros-das-olimpiadas-2016-7614340#ixzz2LNrQ0j8A

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

'O FLAMENGO TERÁ A MAIOR ARRECADAÇÃO DO BRASIL EM 2014', DIZ BAP


LUIZ EDUARDO BAPTISTA, VICE-PRESIDENTE DE MARKETING DO CLUBE E PRESIDENTE DA SKY, GARANTE QUE EQUIPE TERÁ MAIOR FATURAMENTO DO BRASIL A PARTIR DO ANO QUE VEM

O que a maioria dos dirigentes de times de futebol trata como um objetivo – na maioria dos casos bem distante – , Luiz Eduardo Baptista, vice-presidente de marketing do Flamengo e presidente da Sky, tem como certeza. O clube, diz ele, terá a partir de 2014 o maior faturamento do Brasil, uma posição que nos últimos dez anos foi ocupada apenas por São Paulo, Santos e Corinthians, todos paulistas.

A convicção do executivo – absolutamente apaixonado pela equipe que torce e, desde o início deste ano, dirige – é respaldada pela quantidade de torcedores que o clube tem. Nas contas dele, 39 milhões.

"O potencial de trabalho da marca é tão grande que não temos dúvida que irá acontecer", afirma. "O Flamengo vai ter a maior arrecadação do Brasil. Ponto. O que a gente tem dúvida é 'quando'. Mas vai ser em 2014".

AnoLíderFaturamento
2003São PauloR$ 95 milhões
2004São PauloR$ 84 milhões
2005SantosR$ 136 milhões
2006São PauloR$ 123 milhões
2007São PauloR$ 190 milhões
2008São PauloR$ 161 milhões
2009CorinthiansR$ 181 milhões
2010CorinthiansR$ 213 milhões
2011CorinthiansR$ 290 milhões

Um dos principais nomes da gestão do novo presidente, Eduardo Bandeira de Mello, Bap, como é conhecido, tem como uma das primeiras metas fazer com que a camisa rubro-negra gere R$ 50 milhões por ano em patrocínios. A primeira das três cotas disponíveis, entre peito, costas e mangas, já foi preenchida pela Peugeot em um esquema de "patrocínio rotativo", uma novidade para o mercado brasileiro.

Em entrevista exclusiva a NEGÓCIOS, Bap contou como irá conciliar as rotinas de vice-presidente do Flamengo e presidente da Sky e detalhou como o clube irá conseguir verba. Além dos patrocínios, há o contrato assinado com a Adidas, que passará a ser fornecedora da equipe a partir de 1º de maio deste ano; a estruturação de uma rede de lojas, em um modelo similar ao do Corinthians, e o programa de sócios-torcedores.

Atual presidente da Sky, Bap trabalhou em empresas de telecomunicações, como TVA, DirecTV e Optiglobe; e de varejo, como Lojas Americanas e Mesbla. Formado em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez MBA em administração de empresas e mestrado em finanças e marketing pela Coppead-RJ.

Como conciliar as rotinas de Sky e Flamengo? Como será o dia a dia?
Na verdade, montamos um conselho gestor que se reúne a cada 15 dias no Rio de Janeiro das 19h às 22h. No mais, profissionalizamos o clube. Como nas segundas-feiras a Sky começa a trabalhar às 7h e acaba às 16h30, não há conflito com o que faço na empresa. Quer dizer, pego a ponte de 17h30 às 18h, chego no Flamengo às 19h e volto no dia seguinte cedo. Como não sou profissional do Flamengo, porque em comparação a uma empresa faço parte do board, não dou expediente no Flamengo. Não há conflito seja em negócio, porque não há conflito com uma TV por assinatura, seja em tempo, porque não é toda semana e não dou expediente no clube.

O departamento de marketing do Flamengo antes tinha o João Henrique Areias, que até um pouco depois da posse seria o diretor executivo de marketing, mas ele saiu. Como irá funcionar o departamento? Quem será o diretor executivo de marketing?
Temos o Frederico Luz, diretor executivo de marketing, com uma nova equipe o apoiando, mais algumas pessoas da equipe anterior e o recurso compartilhado com a vice-presidência de comunicação, do Gustavo Oliveira, com o Tiago Cordeiro, que é quem cuida das redes sociais. Mas muito provavelmente vamos ter mais integrantes. Com o tempo, teremos mais pessoas.

Você falou antes da eleição em ter dois diretores executivos de marketing. Um para a parte de patrocínios, outro para o relacionamento com a torcida. Este plano está mantido?
Está mantido, mas como teremos um programa de sócios-torcedores entre abril e maio, o diretor de relacionamento com a torcida será contratado mais para frente. Não faz sentido, até pelas contas do clube, contratar alguém para cuidar de algo que não está pronto. É mais ou menos como contratar uma governanta para cuidar de uma casa que você vai ficar, mas que estará pronta daqui a três ou quatro meses. Então está confirmado, mas ele virá um pouco mais para frente.

Desde o começo da nova gestão, o Flamengo tem um foco muito claro em reestruturação de dívidas, das finanças. Qual o papel do departamento de marketing nesse processo?
Entendo que o departamento de marketing é absolutamente fundamental na nova gestão do Flamengo, na medida em que a quase totalidade de receitas incrementais que o clube pode obter é do departamento de marketing. Patrocínios, sócio-torcedor e licenciamento de produtos. Então nós estamos trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana, para fazer com que isso aconteça com o tempo. Em 25 dias de gestão, já conseguimos fechar com a Adidas o maior contrato de marketing esportivo da América Latina, que colocou o Flamengo como sendo um dos cinco clubes mais importantes do mundo para a Adidas, e fechamos com a Peugeot. E haverá mais notícias boas para o torcedor rubro-negro.

No marketing, quais são as primeiras prioridades?
É aumento de receita. Eu diria que são patrocínios e o programa de sócio-torcedor com toda certeza.

No futebol brasileiro, o departamento de marketing costuma ter um papel muito mais comercial, de captar patrocínios e recursos, do que propriamente de marketing. Será este o perfil do marketing do Flamengo: conseguir dinheiro?
Não. Eu entendo que pode até ser no primeiro momento, nos primeiros 90 ou 120 dias, mas o trabalho do departamento de marketing do Flamengo vai se dar unindo torcida, atletas, sócios-torcedores, sócios do clubes e patrocinadores. É um composto. Vai ter um trabalho de relação muito íntima, que popularmente no marketing é chamado de ativação. Vamos criar comunidades no entorno da paixão Flamengo com atletas e patrocinadores. E de alguma maneira o desafio do marketing é monetizar esta relação, e por isso o programa de sócio-torcedor vai garantir que a ativação aconteça.

Na questão dos patrocínios, já se falou muito no patrocínio rotativo. Ele é de fato rotativo? Como funciona este esquema?
Está havendo uma confusão em relação ao patrocínio rotativo. O que acontece é o seguinte: o patrocínio rotativo não é nada mais do que uma opção que você coloca no contrato. Você tem três patrocinadores na camisa. Eventualmente, você perde o patrocinador máster, como foi a situação do Flamengo nos últimos dois anos. Por contrato, nenhum dos outros dois patrocinadores poderia pular para a frente da camisa do Flamengo pagando mais. Então, a ideia seria que o plano A seja ter um patrocinador máster, um para as costas e um para a manga. O plano B, já garantido em contrato, como foi negociado com Peugeot e com a própria Adidas, é que, em havendo a necessidade, vai haver um rodízio, e ele será anual. Quem está nas costas em um ano pode estar na frente no outro e pode estar na manga no outro. Mas isso é somente uma alternativa para minimizar uma potencial perda de um dos patrocinadores da camisa do clube.

E o que a Peugeot escreveu em nota oficial sobre estar na frente da camisa até abril e depois passar para as costas? O que eles quiseram dizer?
A Peugeot foi bonificada por ser o primeiro patrocinador, além da Adidas, que vai estampar marca na camisa. Como temos um contrato com a Olympikus que vai até o dia 30 de abril, nós concedemos o espaço máster da camisa da Olympikus, que não estava vendido, à Peugeot, como bonificação e como premiação por ter sido a primeira a aderir ao modelo de marketing que estamos propondo. A partir de 1º de maio, a Peugeot vai estampar as costas da camisa do Flamengo.

Quando a empresa trocar de cota, vai haver uma variação de valor prevista em contrato?
Caso seja necessário, claro que os valores mudam. Mas é uma possibilidade. Mudam em média de 40% a 50%.

Neste esquema de trocar marca de uma cota para outra, a Peugeot pode estar no peito e mais para frente, quando ela passar para as costas, haver um gol, um título, um Mundial, um momento de grande visibilidade. Há alguma maneira de compensá-la?
Não, não. Isso foi acordado da maneira que falei. Todo mundo sabe quando é a Copa do Mundo, quando é o lançamento dos veículos deles. Isso não está contemplado no contrato atual. O que está negociado é uma participação fixa nas costas, um eventual rodízio caso necessário e uma bonificação por conquista de títulos que pode chegar a 50% do valor base que ela paga pela camisa.

Há uma meta de arrecadação? Vocês têm um número?
O número da camisa do Flamengo são exatos R$ 50 milhões. Este é nosso número. Mais variáveis. R$ 50 milhões seria o básico. Caso o Flamengo conquiste títulos, cada patrocinador dará a sua contribuição. Se o Flamengo ganhar tudo em um ano, aumentaria em 50% e iria para R$ 75 milhões.

Há uma divisão clara de preço entre as cotas? Quanto custam a frente, as costas e as mangas?
Proporcionalmente, o máster estaria no peito da camisa, o segundo estaria nas costas e o terceiro estaria nas mangas, em valor. Ainda que todos eles tenham as partes fixa e variável, esta é a divisão.

Nesta conta de R$ 50 milhões entra a verba da Adidas?
Claro que não. É um contrato à parte. A Adidas entra na categoria de material esportivo e estima-se que seja de R$ 38 milhões a R$ 42 milhões por ano.

Incluindo material esportivo, entre outros itens.
É... Esta é a ordem de grandeza do contrato. 

Você havia dito antes da posse que potenciais patrocinadores estavam na arquibancada vendo o Flamengo “maltratar” seus patrocinadores. A própria Olympikus não teria sido bem tratada nessa transição para a Adidas. O que irá mudar no trato com os patrocinadores? Como entregar mais retorno?
Primeiro, tem uma coisa que está implícita no contrato que é o seguinte: nós fizemos um contrato com a Adidas de dez anos e um com a Peugeot por três. Quando você não quer ter uma relação duradoura, você não fecha contratos tão longos, está certo? Este é o primeiro sinal. O segundo sinal é a ativação que estamos fazendo. Eu, daqui a pouco, terei que trocar um dos meus carros, e este carro irá levar meus filhos à escola. Seguramente será um carro da Peugeot. Vou comprar um carro da Peugeot. Então, para dar um exemplo, vamos de alguma maneira deixar claro para a torcida que, olha, a prioridade é Peugeot.

Incentivar o torcedor a comprar Peugeot, porque à Peugeot interessa vender carro.
É óbvio, é óbvio. É a parte chamada de ativação, mais comumente, no mercado de marketing.

Um dos planos também era criar um dia nacional do cadastro rubro-negro, com uma meta de cadastrar 1 milhão de torcedores no primeiro ano. Como está o projeto?
Está de vento em popa e vocês saberão na hora certa. Ele sairá em breve. Não vai demorar.

Há um prazo? Três meses? Seis?
Antes disso.

Como ele beneficia exatamente o Flamengo? Como vocês vão usar as informações sobre o torcedor?
O torcedor se cadastra e demonstra uma vontade inequívoca de se relacionar. Vamos manter uma relação mais próxima com aquela fração dos 39 milhões que tem interesse em estar se relacionando com o Flamengo, com seus assuntos e contribuindo com o clube.

Em relação às lojas, o Flamengo tem algum plano traçado?
Estamos revisando isso exatamente agora. Temos um modelo que chamamos internamente de modelo de franquias, e ele está sendo revisitado. Vão haver regras. Os franqueados serão parceiros do Clube de Regatas do Flamengo. Eles vão ser compensados financeiramente, vão ganhar para vender os produtos que interessam ao Flamengo vender. Não apenas aqueles que eles colocam em suas lojas.

O Corinthians fez uma parceria com a SPR, e ela faz a operação da rede de franquias. Com vocês a ideia é seguir o mesmo modelo ou seguir outro caminho?
Depende. Tem aspectos muito interessantes desse modelo e outros que não são tão interessantes. Vamos tentar traçar um caminho nosso, mas não vamos reinventar a roda, está certo? O que está sendo feito e está dando certo evidentemente será considerado.

Você também já chegou a falar que o Barcelona em 2003 ou 2004 era um clube que estava financeiramente mal e hoje é referência. No Flamengo, em termos de planejamento de longo prazo, quais as metas?
No Flamengo, pela dimensão, pela relevância e pela paixão que ele desperta, tudo é para ontem. Mas eu diria que a partir de 2014 nós vamos ser o clube de maior arrecadação do Brasil. Até 2015 ou 2016, queremos estar entre as dez maiores arrecadações do mundo. O Flamengo tem que pensar grande, e não nos falta potencial. É evidente que isso depende de alguns resultados dentro do campo, mas achamos que o potencial de trabalho da marca é tão grande que não temos dúvida que irá acontecer. Não é “se” vai acontecer. O Flamengo vai ter a maior arrecadação do Brasil. Ponto. O que a gente tem dúvida é “quando”. Mas vai ser em 2014.

Quanto aos esportes olímpicos, imagino que haja uma pressão por futebol, futebol, futebol, mas quais são os planos?
Estamos trabalhando muito duro para ter todas as certidões que nos qualifiquem a usar as leis absolutamente espetaculares que temos no Brasil. A Lei de Incentivo ao Esporte é um gol de placa do Governo Federal e, seguramente, o Flamengo irá se planejar para buscar recursos para esportes olímpicos. O Flamengo é um dos maiores formadores de atletas olímpicos deste país. Sem sombra de dúvida, vamos apoiar e temos muito orgulho disso. Nós vamos trabalhar no sentido de buscar o saneamento do clube para que ele tenha as necessárias certidões, para que as empresas possam contribuir legalmente e ter a renúncia fiscal prevista na Lei de Incentivo ao Esporte.

Fonte: http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2013/01/o-flamengo-tera-maior-arrecadacao-do-brasil-em-2014-diz-bap.html

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Penalty diz ter fôlego para brigar no topo do futebol nacional


Por Mauro Zafalon

Mal começou 2013 e o mercado esportivo já apresentava novidades. E novidades caras. No primeiro dia do ano, o São Paulo anunciou a Penalty como sua nova fornecedora de material esportivo até dezembro de 2015. Mas o que chamou atenção foi mesmo o valor que será desembolsado pela empresa brasileira: R$ 35 milhões aos cofres tricolores, segundo as duas instituições.

As cifras ultrapassariam os negócios entre Corinthians e Nike e Flamengo e Adidas, ratificando a associação entre São Paulo e Penalty como a mais valiosa entre um clube de futebol e uma fornecedora de material esportivo no Brasil. "Temos muito fôlego para brigar nesse patamar", afirmou Rafael Gouveia, gerente-geral de operação da Penalty, em entrevista à Máquina do Esporte. Vale lembrar que a corporação nacional e a equipe do Morumbi já foram parceiras na década de 1990, quando o time paulista se tornou bicampeão mundial.

Desde essa época, muita coisa mudou para a dupla. Principalmente para a Penalty. A companhia, pertencente ao Grupo Cambuci, passou por uma verdadeira reformulação em abril de 2011: reposicionou sua marca, reformulou sua linha de produtos e direcionou todos os seus investimentos para o futebol, remontando às suas origens, na década de 1970.

Após a “revolução”, a Penalty apostou em conscientizar seu público sobre a “nova” marca e exibiu uma série de comerciais na televisão fechada. Agora, em 2013, a meta é outra. “É hora de dar o segundo passo, que será a ativação de nossas propriedades”, revelou Gouveia.

Leia a entrevista na íntegra:

Rafael Gouveia
Rafael Gouveia é gerente-geral de operação da fabricante brasileira de material esportivo Penalty, empresa pela qual trabalha desde outubro de 2011.
Antes de chegar à Penalty, o executivo ocupou posições de liderança nas áreas comerciais e de operações nas companhias Unilever, JBS Friboi e Schincariol.
Gouveia é formado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).


Máquina do Esporte: O que a Penalty espera dessa parceria com o São Paulo?
Rafael Gouveia: Nesses três anos de parceria com o São Paulo, queremos contribuir muito para que essa relação seja boa para o clube. A Penalty deseja ser mais que simplesmente a fornecedora de material esportivo do São Paulo. O objetivo da empresa é desenvolver e participar de vários projetos ao lado do time.

ME: Um desses projetos deve ser a criação de uma camisa vermelha, em alusão à nova cor das cadeiras do Morumbi. O que você pode dizer a respeito disso?
RG: Esse será um dos nossos primeiros projetos e ocorrerá em parceria com o departamento de marketing do São Paulo. Estamos criando uma camisa vermelha em homenagem à cor das cadeiras do Morumbi, e ela vestirá os atletas durante uma partida ainda indefinida, provavelmente no mês de março. A ideia é transformar o Morumbi em uma arena vermelha nesse dia.

ME: A Penalty costuma produzir as camisas 3 de seus clubes em parceria com a grife Cavalera. Embora a camisa vermelha seja apenas um modelo comemorativo, há chances de a peça ser desenhada pela Cavalera? A Penalty tem interesse em ativar a grife em sua relação com o São Paulo?
RG: Nesse primeiro momento, é provável que ainda não vamos ativar a Cavalera na parceria com o São Paulo, mas nada está descartado. No entanto, queremos, sim, no futuro, trabalhar com a Cavalera em alguns produtos para o clube. Talvez agora ainda seja um pouco cedo para isso.

ME: A Penalty também terá uma loja com o São Paulo no Morumbi. Quando ela estará disponível para os torcedores?
RG: Essa loja no estádio do Morumbi será outro grande projeto entre a Penalty e o São Paulo. Até agora, ela ainda não foi entregue oficialmente à Penalty. O antigo fornecedor de material esportivo [a inglesa Reebok, parceira de 2006 a 2012] está desocupando o espaço. Em breve, devemos receber a loja e, posteriormente, ela já estará funcionando.

ME: Dentre os cinco clubes de maior torcida no Brasil, a Nike é parceira de um (Corinthians), a Adidas será parceira de dois (Palmeiras e Flamengo), e a Penalty, também chegou a dois times, já que, além do São Paulo, também fornece material ao Vasco. Até onde vai o fôlego da Penalty para brigar com Nike e Adidas nesse patamar?
RG: Essa é uma excelente pergunta. É o seguinte: a Penalty tem o objetivo de ser a maior marca brasileira de futebol. Não foi ao acaso que nos tornamos a fornecedora de material esportivo de São Paulo e Vasco. Sabemos da importância de nos associarmos a grandes clubes brasileiros. Vamos continuar trabalhando para ter sempre times desse nível. E temos muito fôlego para isso.

ME: O contrato da Penalty com o São Paulo tem sido tratado como o mais alto do Brasil entre fornecedor de material esportivo e clube, valendo R$ 35 milhões anuais. Como é detalhado esse valor?
RG: O valor oficial do contrato é, sim, de R$ 35 milhões por ano. Essa quantia já foi inclusive divulgada pela própria Penalty e pelo São Paulo. Esses R$ 35 milhões são divididos entre algumas propriedades, como pagamento em dinheiro ao clube e produção de material esportivo, da mesma forma que em todos os contratos.           

ME: Em 2010, a Penalty teve um faturamento líquido de R$ 248 milhões. Como foram esses dois últimos anos?
RG: Em 2011, tivemos um grande crescimento de dois dígitos percentuais em relação ao ano anterior. Isso se deu, muito em grande parte, por conta da parceria com o Vasco, que fez uma ótima temporada, conquistando o título da Copa do Brasil e o vice-campeonato do Brasileirão. Quanto a 2012, ainda não temos os números, mas novamente conseguimos um bom lucro. Os valores devem ser divulgados em breve em nosso balanço anual.

ME: Quais são as metas da Penalty para 2013?
RG: Pretendemos continuar com o alto investimento no futebol, consolidar nossa marca no mercado e dar sequência à sua internacionalização. Nesse ano, também esperamos realizar muitas ativações de nossas propriedades e de nossas parcerias, especialmente essa com o São Paulo.

ME: A Penalty exibe regularmente comerciais na televisão fechada. Como isso se dará neste ano?
RG: Desde que a Penalty passou por uma reformulação em 2011, investimos muito em publicidade para divulgar e apresentar às pessoas a “nova” Penalty, para que todos tivessem consciência da marca. Esse foi o primeiro passo. Agora, é hora de dar o segundo, que será a ativação de nossas propriedades. Portanto, diminuiremos a quantidade de publicidade para focar a ativação das propriedades. 

Fonte: http://www.maquinadoesporte.com.br/i/entrevistas/view/0/318/Rafael-Gouveia/index.php

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Cacau Cotta falar sobre os três anos de Fla: ‘Fiz o que muitos não tiveram coragem’


Por Bruno Braga

A partir do dia 2 de janeiro a vida de Cacau Cotta, vice-presidente do Fla-Gávea e de administração, vai mudar radicalmente. Neste dia oficialmente ele vai passar o bastão para José Carlos Dias e Claudio Pracownik. O dirigente, um dos mais atuantes durante os três anos da gestão de Patricia Amorim, vai deixar, como ele mesmo diz, o “Big Brother Fla”, para voltar a ser torcedor de arquibancada. E com o dever cumprido, principalmente na parte da sede social, antes abandonada e hoje melhor estruturada. E muito dessas melhorias foram conseguidas com criatividade por Luiz Claudio Cotta, como o próprio parquinho, tratado de forma pejorativa, mas que retrata como que era secundário passou a ser uma das principais marcas da administração, junto com o patrimônio, comandada pelo vice-presidente Alexandre Wrobel.

Nesta entrevista à De Prima, Cacau Cotta, conta as lendas e até de funcionários fantasmas de quando chegou a direção da Fla-Gávea que impedia realizações na Gávea, como conseguiu o parquinho e investimentos do Comitê Olímpico Americano, das realizações e dos projetos de reforma da arquibancada da Gávea e da piscina, que serão tocadas pelo presidente eleito Eduardo Bandeira. Faz a sua avaliação de administração e admite que a parte negativa foi a falta de um grande título no futebol e que não estava mais dando conta de duas vice-presidências. Ainda revela uma história curiosa da “babá de Adriano”, contratado por um dirigente para cuidar do Imperador em 2009, para explicar porque Ronaldinho talvez não tenha dado certo no Flamengo.

Confira os principais trechos do bate-papo:

Como o Cacau Cotta encerra os trabalhos na diretoria do Flamengo após três anos?

“O Flamengo é um vício. Frequentei o Flamengo de segunda a segunda. Durante três anos. Gávea que era a prioridade. Meu foco era a recuperação da Gávea. Saio com muita alegria. Não me sinto desgastado, rancoroso, o mesmo rubro-negro que eu era da geral. O mesmo de 20 anos atrás. Em relação a sede da Gávea eu saio de cabeça erguida. Honrei o nome da minha família, dos meus amigos, do Flamengo, da torcida. Fiz um trabalho legal, que me dava aquele prazer. Costumo dizer que foi um razoável vice-presidente de administração e um bom na pasta do Fla-Gávea. Primeiro eu vou voltar para arquibancada, porque eu não gostava muito de camarote não. Eu ia mais pela família. Voltar para arquibancada pode extravasar mais, porque ninguém fica de vigiando para ver a reação, rindo chorando, essa vigília passou. Eu procurava me policiar mesmo no Big Brother Flamengo. Vou ficar rindo de que quando eu vou a um treino, por exemplo? Qual a graça? Não poderia. Mas eu não deixei de ser torcedor”.

Como você encontrou a situação da Gávea e por que o clube estava tão abandonado?

“É chato de falar para trás porque você vai acabar atingindo pessoas e eu não gosto de atingir pessoas. Nada podia fazer na Gávea. Tudo estava na Justiça. Parecia que tinha uma lenda que que nada poderia mexer. Tinha telhas guardadas e diziam que não podia mexer. Consegui usar todas. Assim como reformar locais da sede que muitos falavam que não poderia mexer. Fizemos a quadra de futebol de areia, que não podia mexer… Eu falei: ” espera aí, o terreno é do Flamengo”. A Gávea não existia como clube esportivo e social, estava totalmente degradado. Tinha mato de dois metros na entrada da Gilberto Cardoso. Não sei quantas toneladas de entulho. E todos os materiais esportivos e sociais deteriorados. Campo de futebol a secretaria deteriorados, 90% conseguimos recuperar”.

A situação de degradação assustou você quando começou como diretor do Fla-Gávea?

“Não me assustou porque eu sabia do meu potencial e do meu amor pelo Flamengo, e eu sabia da questão porque minha família frequenta o Flamengo. Isso faz toda a diferença. O estado que o clube se encontrava não condizia com a história, com o tamanho do Flamengo. Imagina o torcedor que vem de outro estado para visitar a Gávea? O Eduardo Bandeira frequenta eu vejo os filhos dele lá. O Cheirinho (José Carlos dias, vice-presidente do Fla-Gávea) frequenta. O Flávio Willeman, vice jurídico joga tênis no clube. Isso é fundamental, o presidente frequenta o clube isso é diferencial. Os sócios chegavam no Flamengo e estacionava em qualquer lugar em dezembro de 2009, qualquer dia, qualquer hora”.

Encontrou muita dificuldade para reestruturar a Gávea?

“Foi muito difícil. Você chega lá e a prioridade não é essa, não é? A maioria eu consegui tocar com parcerias. Um exemplo é o parquinho. Eu consegui com uma escola, que meu deu o brinquedo, seminovo, o maior, eu reformei, que custava R$ 100 mil, gastamos R$ 8 mil para reformar . As obras foram feitas pelos nossos próprios funcionários, a primeira parte da obra, a segunda parte eu consegui patrocínios de três empresas que prestam serviço para o Flamengo. Corri atrás do financeiro para pagar os outros 50%, esse é o exemplo. O outro exemplo é o comitê olímpico americano, que investiu no ginásio Togo Renan Soares, na quadra de futsal, totalmente, piso que custa quase 100 mil dólares, de primeiro mundo”.

Qual avaliação que você faz dos três anos da administração da Patricia Amorim?

“Voltamos a ter jogadores, ter direitos federativos, faltou o título para coroar o patrimônio, o Fla-Gàvea, a solução do Morro da Viúva, do CT. Mas temos grandes jogadores na base. A Cristina Callou, o Michel Levy, com todos os defeitos dele, carregou muito pesada a cruz, que é o financeiro, o Rafael de Piro, todos os vice presidentes colaboraram. O fardo maior no último ano, com uma oposição muito estruturada, estávamos na Libertadores e fomos péssimos, no Brasileiro fomos nos arrastando, no Carioca não chegamos à final. Pagamos o preço no final do ano. O negativo foi a falta de título para coroar isso tudo. O Flamengo é um todo. Foi avaliada pelo que fez, o o grupo novo veio com uma proposta fantástica, que principalmente o sócio que não frequenta a Gávea no dia a dia, comprou a ideia, a onda azul pegou, e eu vou torcer para o futebol e os grandes títulos venham”.

Qual foi o principal erro?
“No futebol o principal erro, sem sombra de dúvidas, foi a saída do Vanderlei. O Vanderlei fazia esse papel de diretor executivo, centralizava a e deixava pouca coisa chegar na diretoria. Com um poder, credibilidade fantástica de gestão de futebol. De um treinador que conhece das quatro linhas até os bastidores. Foi um erro irreparável, o segundo erro ter assumido o compromisso com uma pessoa que não estava muito com a gente, que foi o Ronaldinho. Se estivesse, valeria. Se eu estivesse mais próximo teria condições de ajudar mais. Ele sempre foi muito legal comigo. Faltou aquele papo. Ou vira amigo e convence do que é realmente importante para o Flamengo, ou não vai dar certo. Vou contar a história de um supervisor, que contratou o melhor amigo do Adriano. Ganhava um salário merreca só para tomar conta do Adriano. O cara ia para o treino com o Adriano, buscava o Adriano, o cara virou baba. E o Adriano deu certo e foi campeão. Não sei se (o Ronaldinho) precisava de babá, mas precisava de alguém mais amigo dele para entender a grandeza do Flamengo, do quanto precisávamos dele”.

A Patricia Amorim afirmou que foi avaliada somente pelos resultados do futebol. Foi mesmo?

“Não acho. Acho que a avaliação dela, a derrota dela, com certeza, em grande parte foi no futebol. A avaliação foi de razoável para boa. Ela teve mais voto do que na última eleição. O que foi avaliado? Quando você é presidente começa a ter desgaste, tanto que teve 720 votos, no dia seguinte do hexa e nessa eleição e teve 914. Houve uma grande mobilização da chapa vencedora, fantástica, nunca vista na história do Flamengo, quem tem um cabo eleitoral chamado Arthur Antunes Coimbra, Zico, difícil de perder a eleição e com todos os ex-presidente apoiando”.
Como você chegou no Flamengo?

“Eu era torcedor da geral (do Maracanã) em todos os jogos, quando meu pai morreu fui morar em Ipanema, comecei a frequentar o clube como sócio. Comecei a participar ajudando algumas pessoas, não tinha interesse. Dessa vez eu resolvi participar, recebi o convite para ser diretor, acabei virando vice-presidente de duas pastas no final, foi muito legal, não me arrependo de nada. O cara que saiu da geral do Maracanã, ter duas vice-presidências no Flamengo é uma honra, nem no meu melhor sonho eu sonhei isso. É uma realização, um sonho, fazer um grão de areia pelo clube, de fazer parte da história do Flamengo”.

Você falou que foi razoável na parte administrativa. Chegou a ter erros graves… Estava complicado comandar os dois setores?

“É impossível gerir duas pastas. Comentei com a presidente Patricia Amorim mais no final. Tinha pretensão de resolver em janeiro. Abrir mão de administração e ficar com só com a Fla-Gávea. Gosto de ver o resultado imediato, a administração é mais burocrática, demora mais”.

E como está sendo o trabalho de transição?

“Eu acho que essa transição nunca foi vista no Flamengo. Da maneira que está sendo conduzida pelos dois grupos. Para a minha surpresa, profissional. Amistosa. Esse pode ser o começo do sucesso da nova gestão. Não podem abrir mão da experiência. É impossível sentar hoje sem a colaboração do ex-vice presidente da pasta. Se isso acontecer são uns seis meses que você perde para tomar pé da situação. Isso é fundamental. Eu estou passando exatamente o que foi feito e o que precisa ser feito. A arquibancada do futebol precisa passar por um reforço estrutural, e as piscinas da sede, que foi onde a Patricia Amorim nasceu, ela não conseguiu fazer uma reforma, para você ver como houve um pouco de preconceito. Isso é urgente, prioridade, é risco, é responsabilidade que nós temos que ter. Estava na programação a piscina entrar em obra no inverno, e a arquibancada no mais tardar em março. Os ginásios têm o da ginástico que pegou fogo, que é um ginásio que vai ter que ter uma reparação na parte de cobertura, maquinário, de aparelhagem, tem seguro, cobre até 10 milhões, vai ser fácil de tocar isso, tão logo os presidentes assumam já vai entrar com o projeto”.

O que falar do Michel Levy, polêmico vice de finanças, com o qual teve muitos atritos?

“O Michel pensa diferente de mim muita das vezes, mas foi fundamental para gestão. Porque completava a gestão. Ele muitas vezes matou muitas coisas no peito, vários desgastes. Vou frisar, pensa muitas vezes totalmente diferente de mim, muitas vezes tivemos divergências marcantes, mas é um cara que eu respeito e teve um papel sacrificante na gestão”.

Recado final para os torcedores do Flamengo, sócios e família…

“A maior lição que meu pai me passou foi a de que é melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. E eu acho que isso eu levei à risca em vários momentos. Eu tive coragem para realizar algumas coisas para o Flamengo. E eu acho que deu certo. Com três meses da gestão me convidou para ser o vice-presidente do Fla-Gávea. O Michel não estava aguentando e me pediu para ajudar na administração e acabei assumindo. Peguei funcionários fantasma, fiz um trabalho legal. Mas o meu prazer maior era a Gávea. A administração foi um peso, não fui péssimo. Foi razoável. O Cacau é um apaixonado. Vai torcer por todos os esportes, principalmente futebol. Vou ajudar a atual gestão no que for preciso. O discurso é muito forte de grandes executivos, Zico, o que será depois dele se não der certo? Então eles têm que dar certo, vou ajudar em tudo para dar certo. Quem fala por mim não sou eu mesmo. Falar de mim mesmo é esquisito. Quem fala de mim são os outros quando eu não estou presente. As nossas atitudes para trás e para frente. Isso vai falar por mim. O que eu fiz está lá”.

Fonte: http://blogs.lancenet.com.br/deprima/2012/12/31/cacau-cotta-fiz-o-que-muitos-nao-tiveram-coragem/

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Entrevista com Carlos Arthur Nuzman




Sebastian Coe: "Lotar os estádios é essencial"


O organizador dos Jogos de Londres afirma que o grande público precisa ser atraído para a Rio-2016. “O espírito olímpico é tão importante quanto as obras”

Por MAURÍCIO MEIRELES

O britânico Sebastian Coe sabe vencer em Olimpíadas. Das de 1980 e 1984, saiu com um total de quatro medalhas, duas de ouro e duas de prata, nas provas de 1.500 metros e 800 metros rasos. Foi o suficiente para que se tornasse um dos maiores corredores da história. Mais tarde, ganhou o título de Lord Coe e assumiu o comando dos Jogos de 2012, em Londres. Voltou a vencer. O sucesso da Olimpíada londrina foi unânime, da qualidade das instalações à eficiência do transporte público, passando pelo entusiasmo do público. Em visita ao Rio de Janeiro há duas semanas, para transferir oficialmente a sede olímpica, Coe, de 56 anos, disse a ÉPOCA que a capital fluminense pode realizar melhorias semelhantes às de Londres. “Fizemos em sete anos o que levaria 50.”

ÉPOCA – Rio de Janeiro e Londres são cidades muito diferentes. Que lições o Rio pode aprender com a Olimpíada de 2012?
Sebastian Coe – Sim, são muito diferentes. Mas ambas têm como foco principal na organização dos Jogos um objetivo bem parecido: usar as Olimpíadas para inspirar jovens a usar o esporte para mudar suas vidas. Sei que isso funciona. Carlos (Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro) também. Já trabalhamos juntos em projetos com esporte e vimos dar certo. Na cidade onde os implantamos, o esporte ajudou os jovens a reencontrar a autoestima e a melhorar seu desempenho escolar. Em Londres, isso ficou mais claro com a transformação da região leste.

ÉPOCA – Que tipos de transformações de Londres servem de inspiração para o projeto brasileiro?
Coe – Várias áreas pouco desenvolvidas foram recuperadas. Os índices de desemprego nelas caíram drasticamente. O mesmo aconteceu com o problema habitacional e os locais contaminados pela poluição. Fizemos em sete anos o que, de outro modo, teríamos levado 50 anos para realizar sem a ajuda dos Jogos. Temos locais para novas comunidades morarem, porque é nisso que a vila olímpica será transformada. Há instalações de alta qualidade que não existiam antes e servirão para sediar outras competições. É uma contribuição importante para a prática de esportes no país. Além disso, há o óbvio: as Olimpíadas geraram muitos empregos.

>> Em visita ao Brasil, Usain Bolt diz que está ansioso para correr nas Olimpíadas do Rio em 2016 

ÉPOCA – Há algumas semanas, o senhor mesmo disse que estava insatisfeito com as políticas para esporte nas escolas depois dos Jogos. Que erro foi esse? Como o Brasil pode evitá-lo?
Coe – Tudo o que entregamos nas Olimpíadas foi fruto de boas parcerias. Nenhum comitê sozinho consegue preparar os Jogos. Claro que o fardo maior recai sobre os organizadores. Mas eles precisam se associar às autoridades locais e nacionais, às agências reguladoras e às empresas. Minha reclamação é que um dos principais aspectos relativos ao legado olímpico, o envolvimento dos jovens com a prática esportiva e uma vida mais saudável, foi tratado como uma briga política – e não deveria. Depois dos Jogos, o legado deve ser tratado como uma questão prática.

ÉPOCA – Uma das reclamações em relação às Olimpíadas é que as obras necessárias são pagas pelos contribuintes, mas os ingressos são caros. O que pode ser feito em relação aos preços?
Coe – Tínhamos três objetivos. O primeiro, claro, era lotar nossas instalações esportivas com fãs do esporte. E conseguimos: 75% dos ingressos foram vendidos ao público britânico, o que consideramos muito importante. Outro ponto foi conseguir uma estrutura com preços acessíveis, o que também funcionou: 2,5 milhões de ingressos foram vendidos a 20 libras (cerca de R$ 70). Dois terços do total foram vendidos a 50 libras ou menos. Só um em cada dez ingressos custou mais de 100 libras. Qualquer outro tipo de entretenimento – ópera, boliche, futebol americano ou um show dos Rolling Stones – costuma ser mais caro que isso. É bom lembrar que o comitê organizador é uma instituição privada. Precisamos criar um modo de gerar faturamento, já que um quarto dele vem da bilheteria. Nosso segredo, que pode ficar como lição, foi ter atrelado a cada ingresso certa individualidade, quando, antes de as vendas começarem, consultamos o público para saber quanto ele gostaria de pagar por quais lugares. Ao todo, 1,9 milhão de pessoas se inscreveram para comprar quase 24 milhões de ingressos. A procura foi extraordinária. É um ótimo problema, mas cria vários desafios para o comitê organizador.

>> Como virar uma potência olímpica 

ÉPOCA – Isso pode funcionar no Brasil?
Coe – O Brasil terá de encontrar sua própria política de preço. Mas esses objetivos de que falei são os três importantes para qualquer lugar do mundo. Caso contrário, os locais de competição não ficarão lotados, algo essencial para criar a atmosfera olímpica. O espírito olímpico é tão importante quanto as obras. Também é preciso dar oportunidade para as pessoas que ganham pouco assistir às competições. Mas, como comitê organizador, é preciso ganhar dinheiro. É preciso encontrar um equilíbrio.

ÉPOCA – Sobre a presença do público, uma preocupação é lotar esportes menos populares. Como isso pode ser feito?
Coe – Há esportes aos quais os brasileiros ficarão loucos para assistir. Não serão sempre os mesmos que o público britânico gostaria de ver. O judô, por exemplo, é bem mais popular aqui do que na Grã-Bretanha. O importante é se preparar. Quando sentamos para olhar nossa venda de ingressos em Londres, vimos que não havíamos vendido um único ingresso para as partidas de handebol antes dos Jogos. Quando chegou perto, vendemos 278 mil ingressos, porque trabalhamos próximos aos órgãos governamentais. Tentamos encorajar, com programas nas escolas, a popularização de esportes não tão famosos. Há quatro anos, visitei uma região de Londres onde quatro escolas se uniram para contratar um professor de handebol. Meu conselho a outros comitês organizadores é simples: não desanimem diante de esportes que não parecem tão famosos. É uma ótima oportunidade para apresentar crianças e jovens a esportes que eles podem jamais ter sonhado praticar. É um ponto importante do legado olímpico.

>> As lições de Londres para o Rio 

ÉPOCA – Algumas pessoas ficam céticas em relação às grandes construções realizadas para os Jogos. Acham que não haverá procura depois que as Olimpíadas passarem. O que pode ser feito para evitar esse problema?
Coe – Seguimos um padrão claro. Tentamos usar o máximo possível os espaços já existentes que pudessem ser transformados para receber competições. Também precisamos construir espaços permanentes que não existiam no país. Não tínhamos uma pista de corrida adequada, também não tínhamos um espaço para esportes aquáticos. Meu conselho é: só construa espaços novos e permanentes se houver chance de aquilo ser aproveitado depois. Se sua instalação não se encaixa nisso, faça construções temporárias. Depois, elas serão desmontadas completamente ou em parte. Ou serão emprestadas ou doadas.

ÉPOCA – As Olimpíadas são patrocinadas por uma rede de fast-food, o McDonald’s, e marcas de refrigerantes, tidos como opostos a uma vida saudável. Isso não é uma contradição?
Coe – O McDonald’s é o principal patrocinador global das Olimpíadas. Foram ótimos parceiros, estão envolvidos com o Comitê Olímpico Internacional desde 1976 e investem em projetos esportivos. Não vejo contradição. Se a estratégia para a venda de comida for feita corretamente, como foi em Londres, os sanduíches do McDonald’s não serão a única refeição disponível. Tivemos espaço para comidas tradicionais do Reino Unido. O McDonald’s também patrocinará os Jogos do Rio, e o mesmo pode ser feito aqui.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/12/sebastian-coe-lotar-os-estadios-e-essencial.html

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ary Graça: ‘Mudar para quê? Se é bom, fica. Se não é, sai’


Novo presidente da FIVb está licenciado da CBV, mas mantém o poder por perto

Por Ary Cunha

RIO - A galeria de troféus da CBV, na Barra da Tijuca, virou sala de espera do novo escritório da FIVb. Quando não está na Suíça, é de lá que Ary Graça Filho comanda os rumos do vôlei mundial desde que assumiu a entidade, em setembro. Defensor das reeleições ilimitadas, ele está licenciado na CBV e na Sul-Americana, mas mantém o poder por perto.

O escritório da FIVb vai ficar mesmo junto com a sede da CBV?
Separei essa parte aqui e passou a ser FIVb, com porta fechada, tudo direitinho. Contato com a CBV até tem, é só descer e entrar lá. E a Sul-Americana de Vôlei é no prédio aqui em frente.
Cercou tudo, hein, presidente...
Você que está falando. Não bota isso na minha boca (risos). E ainda tem o COB do outro lado da rua (na Avenida das Américas). Cerquei mais ainda.

O que vai mudar no vôlei com sua chegada à presidência da FIVb?
A estrutura vai mudar. Vamos implantar o modelo de gestão que tenho no Brasil, de unidades de negócios. Lá, o setor de desenvolvimento, encarregado de expandir o esporte, é o mesmo que cuida da área técnica, para aprovar bolas, equipamentos, redes... Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Então, vamos implantar uma administração moderna. Mandei instalar equipamentos de vídeo conferência aqui, nas federações e lá em Lausanne. Isso evita que tenha de estar presente em todos os lugares. Mas, nesse início, terei de ficar mais lá do que aqui, para implementar isso tudo.

Qual é o maior desafio do vôlei, em termos globais?
O desafio é vender. Hoje, o voleibol mundial está restrito. Somos fortes apenas em 20, 25 países. No resto, ficamos em níveis inferiores. Estamos em 220 países, mas como esporte dos principais são apenas 25, porque temos muitos na Europa. Se reparar nos últimos 60 anos, só seis países foram campeões mundiais. Desses seis, Rússia e Brasil tiveram praticamente 50% dos títulos. Então, a coisa está muito concentrada. E a ascensão do Brasil é recente. Campeões olímpicos, são apenas sete. Do ponto de vista de marketing, não temos um mercado. A finalidade imediata é fazer com o vôlei de quadra o que fiz na praia, com a Continental Cup, que trouxe 143 países para disputar vaga nas Olimpíadas. Levou dois anos e meio, mas pôs na parada Vanuatu, Ilhas Cook, Barbados, Cayman e outros países esquecidos. A palavra é oportunidade. E para todo mundo.

Mas expandir o vôlei de quadra não é mais complicado?
O vôlei de quadra é mais caro, não são só duas duplas. Tenho que ampliar mercado, mudando as fórmulas de competição, para serem mais comerciais. A Liga Mundial hoje reúne 16 times. Fiz uma proposta de competição apenas com os oito melhores times do mundo. E aí, teria uma Segunda Divisão com outros oito e a Terceira, dando oportunidade para o mundo inteiro entrar, por continente, num modelo mais barato. Em todas elas, um sobe e outro cai. Isso nunca houve na Liga Mundial. É uma sugestão que acho que vai ser aprovada, mês que vem.

Como no futebol, vai cair gente boa.
Aí está a emoção do negócio. Não pode perder. Um bom vai cair. Na prática, o que vai acontecer? Ninguém mais vai mandar segundo time para jogar a primeira fase. A maioria hoje aproveita para fazer experiência. Até o Brasil sempre fez isso. Ano passado, só fomos nos classificar no último jogo. Todos os times mandam jogadores novos. A Liga é competição séria, não é lugar para treinamento. É para pôr em quadra os melhores. E o mesmo vai valer também para o Grand Prix feminino.

Se essa proposta passar, o senhor vai comprar uma briga com o Bernardinho e o Zé Roberto.
Vou ser obrigado a dar uma resposta diplomática. Competição comercial, para desenvolver mercado e não ser deficitária, tem que ser com os melhores jogadores. Se quiser levar a sério o esporte, tem de botar para jogar os melhores artistas. Agora, para cuidar da parte técnica, testar jogador, há outras competições, continentais, sul-americanas, europeus. Aí, bota quem eles quiserem. É preciso ter visão empresarial. Não se pode brincar com o desenvolvimento do marketing do esporte.

Falando em marketing do esporte, muita gente já aponta o MMA como segundo esporte preferido dos brasileiros. O que o senhor acha disso?
É uma propaganda muito bem feita, mas uma mentira absurda. Me lembro, quando era pequeno, que apareceu por aqui luta do Kimura contra o Hélio Gracie, tinha também o Waldemar Santana... Levou uns três, quatro anos, mas depois nunca mais ninguém ouviu falar nisso. Não estou dizendo que o MMA não vá adiante. Estou dizendo que há uma limitação de público, dada a brutalidade que é. Certamente esse público não passa daquilo. Só tivemos três ou quatro torneios no Brasil de Ultimate Fighting... É um modismo, como foram tantos outros. Quero ver consolidar. Não se pode falar em consolidação antes de dez anos. Essas coisas surgem e vão embora, são os cometas. Já um esporte que pouco tempo eu acho que vai arrebentar no Brasil é o rúgbi. Era confinado a Austrália, Nova Zelândia, e agora está arrebentando no mundo todo e tem tudo para se manter. O UFC, enquanto tiver brasileiro ganhando, tudo bem. Quando não tiver, acabou.
Mas, em se tratando de Brasil, essa tese se aplica para qualquer esporte.
Só que o UFC só tem americano e brasileiro. O japonês tentou entrar e não conseguiu. Na Europa, não tem. Não perturbam. Tenho estatísticas de tudo. Eles não incomodam ainda.

Em termos de regras, quais são as novidades a caminho?
Vamos harmonizar o máximo possível as regras da praia e da quadra. Em 90% dos casos é viável e serão regras iguais. Por exemplo: na praia, se você bloqueia, vale um toque. No indoor, não vale. Por quê? Não tem sentido. Na praia, o jogador diz que está machucado, ganha tempo técnico de cinco minutos. E quem vai provar que não está? É uma indisciplina absurda. O Usain Bolt, se der um tiro e sentir uma fisgada, não fica para trás? Então, se machucou, acabou o jogo. Além disso, por que uma quadra tem nove metros no indoor e oito na praia? As duas têm de ser de nove. Pode não ser bom para os brasileiros, que não são tão altos. Então, vamos arrumar jogadores mais altos.

O senhor já está licenciado formalmente da CBV e da Sul-Americana ou vai acumular cargos?
Meu mandato na CBV vai até 2016, depois das Olimpíadas, mas já me licenciei. Na Sul-Americana, da mesma forma. E assumiram estatutariamente os dois vice-presidentes.

E eles vão mandar, com o senhor tão perto?
Aí é problema deles. São os presidentes, vão tomar as atitudes necessárias. O que posso dizer é que tenho uma gestão empresarial, em que a figura do presidente é filosófica e representativa. Está tudo planejado até 2016. Eles têm de implementar o que está combinado. Não vou interferir, mas não posso deixar de ser um aconselhador. Estarei sempre presente. Agora, é bom que se diga que legalmente nada me impede de ficar na presidência das três entidades. Só me licenciei para poder implementar projetos na Federação Internacional.

O senhor também pretende ter mandatos sucessivos na FIVb (ele é presidente da CBV há 15 anos)?
Tenho 69 anos. E na FIVb, com 72 você não pode mais se candidatar. Pelos estatutos atuais, não posso ser reeleito.

Pensa em mudar o estatuto?
É como aquela música: “Deixa a vida me levar”... (risos) Nesse momento, não penso nisso.
Mas o senhor defende as reeleições ilimitadas de dirigentes...
Os clubes de futebol quase todos têm essa obrigação de os presidentes saírem. Aí, eu pergunto: deu solução? O Flamengo, a cada quatro ou seis anos, muda de presidente. E ai, deu solução? É preciso condicionar a permanência no cargo a resultados.

O que o senhor acha, então, de o Ministério do Esporte promete condicionar a liberação de recursos a essa democratização no poder?
O dinheiro público tem de estar condicionado a resultados. É preciso que as metas estejam fixadas de forma bem clara. Dessa forma, você pode cobrar. É como numa empresa. Você tem de responder pelos resultados, não pelo tempo em que está no cargo.

Bernardinho e Zé Roberto ficam? O senhor chegou a dizer que exigiria dedicação exclusiva à seleção.
Com o Bernardinho já está tudo bem adiantado. Tivemos uma conversa em Londres, após as Olimpíadas. Com o Zé Roberto, ainda falta uma conversa com o diretor-técnico, Paulo Márcio, para acertarmos tudo. Realmente, a exclusividade é um desejo meu, mas não significa que seja uma obrigação. É aquilo: vou tirar por que? Só porque acham que é preciso mudar a toda hora? Mudar para quê? Se é bom, fica. Se não é bom, sai.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/esportes/ary-graca-mudar-para-que-se-bom-fica-se-nao-sai-6629805#ixzz2BMAxBD8Z 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Diretor-geral das Olimpíadas de 2016 diz que quase todo o planejamento estará definido até 31 de outubro


Leonardo Gryner fala sobre desafios do Rio e o que viu durante evento em Londres

RIO - Em 2016, o diretor-geral dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio, Leonardo Gryner, completará 40 anos acompanhando profissionalmente as disputas por medalhas. Muita coisa mudou na organização do maior evento do mundo desde 1976 quando ele desembarcou em Montreal ainda como coordenador da equipe da TV Globo, que cobriu evento. A caminho de testemunhar sua 11ª Olimpíada, agora como um dos principais executivos da festa, Gryner fala sobre os desafios do Rio de Janeiro e o que viu durante o evento em Londres.

Qual a principal lição que ficou dos preparativos e da realização dos Jogos de Londres para o Comitê Organizador Rio 2016?
Na verdade, algo que já vínhamos discutimos desde que começamos a preparar o Rio para receber as Olimpíadas: a importância de se contar com um bom planejamento. Isso inclui estar preparado para lançar mão de alternativas ao que foi planejado inicialmente caso surja algum problema. Em Londres, isso aconteceu, por exemplo, com o sistema de venda de ingressos. O plano A era que o usuário só poderia pegar seu ingresso em bilheterias, para evitar falsificações. Quando observaram que haveria filas, passou-se a permitir que os tíquetes fossem impressos em casa. Isso foi de forma automática: o plano B já estava preparado.

O Comitê Organizador de Londres tinha plano B para tudo? O que o Rio fará?
Em Londres não previram, por exemplo, que poderiam ter problemas na contratação de seguranças da iniciativa privada para cuidar das instalações (a empresa responsável não conseguiu recrutar três mil agentes, e os quadros foram complementados por forças do governo). Em relação ao planejamento, nós começamos com a equipe que cuidará disso com quatro anos de antecedência. Em Londres, isso só começou quando faltavam dois anos e meio para os Jogos. Outra diferença é que nosso projeto é estável. Depois de 31 de outubro agora, não haverá alterações significativas: hoje só falta definir se as partidas de rúgbi serão mesmo no estádio de São Januário ou em outro local. Em Londres, só bateram o martelo sobre a localização de quatro instalações faltando menos de três anos para o evento.

Assim como Londres, os Jogos Olímpicos do Rio têm um projeto com responsabilidades divididas entre a iniciativa privada e diferentes esferas de governo. Como o Comitê Organizador concilia os diferentes interesses?
Nós criamos um sistema de gerenciamento de risco. Todos os projetos são mapeados e acompanhados constantemente. A cada três meses, verificamos as informações sobre o andamento de cada ponto. Existe também uma preocupação do Comitê Organizador com os custos do projeto. Por precaução, trabalhamos com uma reserva de contingência.

Em Londres, um dos problemas foi a estratégia de venda de ingressos para outros países. Milhares de tíquetes foram comercializados para agências, mas a demanda foi superestimada. Competições aconteceram em arenas vazias, apesar de no lado de fora das instalações muita gente tentar comprar ingressos sem sucesso. Qual o plano do Rio para evitar isso?
Esse é um desafio de todos os organizadores dos Jogos Olímpicos e que também vamos nos esforçar para superar no Rio. Ainda vamos definir o plano de vendas de ingressos. Na verdade, esses assentos vazios em Londres foram vendidos a agências de viagem de todo o mundo por intermédio dos comitês olímpicos. O problema é que essa demanda é subjetiva e nem sempre os ingressos são devolvidos a tempo pelas agências para serem revendidos. O fato de fazer as Olimpíadas na América do Sul trará um desafio a mais: é uma realidade completamente diferente de promover o evento na Europa. Qual a carga que vou destinar para um país vizinho ao nosso, como o Equador, e qual será a demanda da Dinamarca, por exemplo? Isso será estudado.

Numa entrevista em Londres, o senhor disse que o maior desafio do Rio para os Jogos seria a infraestrutura hoteleira. Continua sendo?
Existe uma demanda oficial do Comitê Olímpico Internacional (COI) de 40 mil vagas para a família olímpica. Nós nos comprometemos com isso no dossiê da candidatura. Esse não é o problema. Mas há uma demanda adicional por acomodações para a qual teremos que buscar uma solução até o ano que vem. Um exemplo: onde alojar as equipes de segurança e outros prestadores de serviços que vão trabalhar no evento? Isso ainda está em fase de análise pelas nossas equipes.

Em novembro, o COI promoverá uma reunião no Rio para analisar as experiências da organização dos Jogos de Londres. Como será?
As reuniões ocorrerão entre os dias 17 e 21, num hotel na Barra da Tijuca. Todos os detalhes sobre o dia a dia dos Jogos de Londres serão repassados, para ajudar na nossa apresentação. As palestras não serão por setores funcionais, mas por temas. Assim, um painel sobre os serviços para espectadores e mídia vai interessar a várias áreas do Comitê Rio 2016.
O Comitê Rio 2016 teve 150 observadores em Londres. Desses, nove que trabalharam junto ao Comitê de Londres foram demitidos por terem feito cópias não autorizadas de documentos. Isso prejudicou em algo os preparativos do Rio?
Claro que foi prejudicial. O impacto maior foi que esses ex-funcionários acumularam uma experiência na organização das Olimpíadas com que não poderemos contar. No nosso programa, tínhamos três tipos de observadores: os que interagiram, os que só observaram e os que trabalharam diretamente com a equipe que organizou os Jogos de Londres (as demissões ocorreram neste último grupo). O foco principal não era identificar o que foi feito de certo ou errado na organização. Mas ver como as demandas dos vários setores responsáveis pela organização dos jogos eram encaminhadas e resolvidas. Essas situações específicas ajudarão o Rio a se planejar melhor .

Londres fez cerimônias de abertura e encerramento que cativaram o público. O Rio terá condições de fazer eventos tão grandiosos?
É difícil comparar Londres com o Rio. Cada país tem suas peculiaridades culturais e históricas, e as cerimônias são usadas para apresentá-las. No caso dos ingleses, eles mostraram a contribuição que deram ao mundo com a Revolução Industrial e à cultura popular com uma série de bandas e cantores. O Brasil também tem uma diversidade cultural enorme. É um país gigantesco unido por uma só língua. São elementos suficientes para fazermos dez cerimônias de abertura.

Em Londres, os voluntários deram um show de boa vontade que supriu eventuais falhas no atendimento aos visitantes. No Rio, existe um perfil ideal de voluntário?
Contar com um bom programa de treinamento não basta. Os voluntários ideais são naturalmente pessoas motivadas para dar o melhor de si. E acreditamos que tenhamos sucesso no Rio com nosso programa.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/diretor-geral-das-olimpiadas-de-2016-diz-que-quase-todo-planejamento-estara-definido-ate-31-de-outubro-6527765#ixzz2AOCtqbQo 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

AS LIÇÕES DE 1950 PARA 2014


O que a Copa de 1950 tem a nos ensinar? Autores do livro “1950: O Preço de Uma Copa” respondem

Por Ciro Barros

Brasil e Uruguai. Final da Copa de 50. O gol de Gighia aos 34 minutos do segundo tempo sacramentou a vitória uruguaia sobre a seleção brasileira na primeira Copa do Mundo realizada no Brasil. Duzentas mil pessoas saíram cabisbaixas e em silêncio do Maracanã, no episódio que, segundo Nelson Rodrigues, inaugurou o “complexo de vira-latas” brasileiro. Foi também nessa Copa, que a camisa da seleção deixou de ser branca para se tornar amarela.

Essas são as lembranças mais comuns sobre aquele torneio. Mas aconteceu muito mais naquela Copa, como descobriram os quatro jornalistas que escreveram “1950: O Preço de Uma Copa”: Beatriz Ferrugia, Diego Salgado, Gustavo Zucchi e Murilo Ximenes.  O livro, que surgiu do Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade Metodista, foi feito de forma independente, e ainda não foi publicado, mas já despertou o interesse de duas editoras.

“Quando você assume a responsabilidade de fazer um evento que já foi realizado, você tem que voltar os olhos para aquela experiência para fazer melhor no próximo. Mas as pessoas esqueceram da Copa de 50″ afirma Beatriz ao explicar a motivação da equipe para realizar um levantamento histórico da preparação brasileira para receber a competição.

“O grande legado da Copa de 1950, se você for pensar bem, é só o Maracanã mesmo, que eu acredito que seria construído de qualquer jeito porque o Rio precisava de um estádio grande; fora disso não houve legado nenhum” diz Diego Salgado, que hoje cobre a preparação brasileira para 2014.

Com apenas seis cidades sede o evento exigiu uma preparação muito menor e a construção de apenas dois estádios (o Maracanã e o Independência, em Belo Horizonte), além da reforma de outros quatro. Não havia discussão de obras de mobilidade urbana, capacidade hoteleira ou sobre a condição dos aeroportos. Aliás, o Brasil nem era ainda o país do futebol.

Leia a entrevista com Beatriz Ferrugia e Diego Salgado:

Quais foram as etapas, o passo a passo para escrever esse livro?

Beatriz Farrugia – Foram seis meses de pesquisa aqui em São Paulo, porque eu e os outros três jornalistas somos daqui. Nesse período, pesquisamos dados sobre cada cidade que foi sede da Copa, mas houve uma rejeição ao trabalho por parte da própria universidade e dos orientadores, porque eles achavam que o projeto era muito ambicioso para o tempo que a gente tinha. Depois, viajamos para todas as cidades-sede e ficamos em média três dias em cada uma delas, quando entrevistávamos as fontes, os personagens e as pessoas que tiveram alguma relação com a Copa de 1950, além de pesquisar os arquivos históricos, sedes de jornais, bancos de dados. Tínhamos material para escrever um livro três vezes maior do que esse!

O Brasil ainda tinha uma vocação incipiente para o futebol. Qual foi o motivo da escolha do Brasil para ser sede da Copa de 50?

BF – Houve uma série de acontecimentos que levaram a essa escolha. Aconteceu a Segunda Guerra Mundial e nesse período não foi realizada a Copa. Então o Brasil foi escolhido depois da Segunda Guerra, quando os países da Europa estavam devastados e não tinham como abrigar um evento desse porte. Muitos países europeus sequer participaram da Copa por estarem destruídos, sem verbas ou sem condições de vir ao Brasil. Outros foram punidos por terem se aliado a Hitler e também não participaram. Então a ideia da Fifa para a Copa na época era que ela fosse feita na América do Sul. A comissão da Fifa visitou alguns países e acabou optando pelo Brasil.

Quais eram as exigências da Fifa para que um país sediasse uma Copa naquela época?

BF – Eram bem menores. Não dá para comparar com as exigências que temos hoje. Havia uma vistoria nos estádios. Então eles pediam um determinado tamanho para o campo de futebol, exigiam uma área para jornalistas, um vestiário adequado, nada mais do que isso.

Entrando mais na questão central do livro agora. Diego, você está cobrindo os preparativos para a Copa de 2014. Qual é o paralelo que você traça tendo feito a pesquisa a respeito dos preparativos para a Copa de 1950 com os preparativos da Copa hoje em dia?

Diego Salgado – A começar pelos gastos, os da Copa de 1950 são bem inferiores aos da Copa de 2014. Em 50, apesar do Brasil ter sido escolhido quatro anos antes, no dia 25 de junho de 1946, a preparação foi muito tardia, não foi planejada detalhadamente pelo governo. Em 2014, apesar dos erros, você vê planejamento. Por exemplo, a Matriz de Responsabilidade, apesar de não ser totalmente seguida, é planejamento. E em 1950, por ser apenas a quarta edição da Copa do Mundo, não teve essa preocupação por parte da Fifa. Isso começou a ocorrer na década de 1970, na Copa da Alemanha (1974) e da Argentina (1978). Analisando os jornais e as informações que conseguimos nas cidades-sede, essa preparação por parte do governo brasileiro foi feita praticamente em 1950, a partir do mês de janeiro, com exceção das obras do Maracanã que começaram em 1948.

E como deu tempo?

DS – Dos seis estádios que foram usados na Copa de 1950, apenas dois foram construídos: o Maracanã e o estádio Independência, em Belo Horizonte. Quatro eram estádios que já existiam desde a década de 1930, com exceção de Curitiba cujo estádio ficou pronto em 1947, um pouquinho depois da escolha, e como era quase novo, foi usado para a Copa do Mundo.

Como foi o financiamento da Copa de 1950? Foi basicamente com dinheiro público?

DS – Não dá para você dividir entre investimento público e privado. Na Copa de 1950, foram gastos, passando de cruzeiro para real e de réis para real, 400 milhões de reais. Esse valor é irrisório se você comparar com os gastos da Copa de hoje. Dá 67 vezes menos. A Copa do Mundo hoje no Brasil está estimada em 27 bilhões de reais, segundo a Matriz de Responsabilidade, com obras de mobilidade, nos aeroportos e estádios, que já estão sendo realizadas. Ainda vão entrar as matrizes de segurança e de telecomunicações. Se você pegar hoje esses 27 bi e analisar a questão dos aeroportos, são 31 obras em 13 aeroportos de Copa do Mundo nas doze cidades-sede, mais Viracopos [que fica em Campinas mas também será usado na Copa]. Com a privatização que ocorreu no início do ano, metade dos 7 bilhões que serão gastos em aeroportos virá da iniciativa privada e outra metade da Infraero. Na Copa de 1950 não dá para fazer essa divisão entre dinheiro público e privado. O Maracanã foi construído com dinheiro público, porque é um estádio municipal. As adequações que foram feitas no Pacaembu a partir de 1949 também foram feitas com dinheiro público. Mas, por exemplo, em Curitiba não dá para mensurar quanto custou o estádio porque foram doações. Ele foi construído ao lado de uma linha de trem e todo o material que foi necessário para a construção do estádio foi doado. É certo que o Maracanã foi o estádio mais caro da Copa, custou 215 milhões de reais, se você fizer a conversão, 150 milhões de cruzeiros na época. E esse dinheiro foi totalmente público.

Houve algum tipo de jogo político na escolha das sedes naquela época?

BF – A Copa de 1950 foi organizada de maneira mais amadora. Algumas cidades já estavam definidas como sede um ano antes. Outras foram decididas dois meses antes. E outras ainda foram decididas por questões puramente políticas. Se havia um candidato que queria ganhar notoriedade com os eleitores, fazia um jogo político para conseguir ter jogos da Copa na capital daquele estado.

Vocês poderiam dar um exemplo desse jogo político?

DS – Para a construção do Maracanã, aconteceu uma briga entre dois políticos famosos no Rio de Janeiro na época, Carlos Lacerda e Mendes de Morais. Este era o prefeito à época da construção do Maracanã, na segunda metade da década de 40 [foi prefeito do Rio entre os anos de 1947 e 1951] e o Carlos Lacerda era opositor e queria ser o pai da construção do Maracanã. Lacerda fez de tudo para que o estádio fosse construído sob a sua batuta, ele queria que o ele fosse feito em Jacarepaguá, longe do centro. Aí o Mendes de Morais tomou a frente da situação e, como prefeito do Rio de Janeiro, definiu o local da construção e foi o verdadeiro pai do Maracanã. Tanto que o nome oficial do Maracanã era estádio Mendes de Morais, só depois mudou para o nome atual, Jornalista Mário Filho [irmão de Nelson Rodrigues], na década de 1960. Então a construção do Maracanã mostra bem essa guerra política para ver quem ficaria com os louros da construção do estádio: o Mendes de Morais ou o Carlos Lacerda, que depois veio até a se tornar governador do estado da Guanabara. O Maracanã é um exemplo específico de que a Copa de 1950 teve essa conotação política bem clara.

E vocês viram na Copa do Mundo um esforço em se fazer uma representação política daquele momento histórico no exterior? Há algum paralelo com o momento atual da realização da Copa?

DS – Hoje em dia isso é inegável. O Brasil se preocupa com isso apesar de alguns erros na preparação, como eu disse. Há essa preocupação com a imagem passada ao exterior. Até porque hoje a Copa do Mundo é uma vitrine e o maior evento midiático do planeta. Mas em 1950 não havia tanto essa preocupação. Era muito mais usar a Copa com fins partidários e políticos, como aconteceu no caso do Maracanã, do que ser uma vitrine para o mundo. Naquela época era mais uma motivação de política interna, dentro desse jogo de interesses entre os políticos locais, e hoje é mais uma preocupação de política externa, de representação do Brasil para o mundo.

Entre os estádios reformados, há uma história curiosa que é a do estádio do Sport, no Recife. Vocês poderiam contar esse caso?

DS – No Recife, o estádio era da década de 1930. E para fazer parte da Copa do Mundo, em março e abril de 50, os próprios sócios do Sport Recife resolveram colocar a mão na massa e reformar o estádio. Mas o local recebeu apenas um jogo da Copa, que foi entre Chile e Estados Unidos, vencido por 5 a 2 pelo Chile. A Fifa incluiu Recife e Porto Alegre 50 a 60 dias antes da Copa do Mundo.

Algum outro caso que vocês se lembrem?

BF – Tem também o caso do estádio Indepedência em Belo Horizonte. Tinha um juiz na cidade, um juiz de futebol que também acumulava funções como funcionário público chamado Raimundo Sampaio, que faleceu em 1984, mas dedicou a vida inteira ao estádio. Chegava a tirar dinheiro de casa para pagar as obras. Ele era dirigente de um clube chamado Sete de Setembro, que construiu o estádio, daí o nome do estádio ser Independência. O Independência foi comprado pelo América e a família desse juiz mantém hoje uma briga com o clube porque quer entrar no estádio, participar da renda dos jogos, e o América não deixa. Enfim, uma história bem complicada e diferente envolvendo esse estádio.

Outra história bacana é a do Ferroviários, estádio de Curitiba que foi construído aos poucos porque era um campinho onde funcionários de uma empresa ferroviária jogavam uma pelada no fim do expediente. E eles sempre paravam os trens que passavam levando mercadoria para aquela região para pedir sobras de madeira, ferro etc. para construir o próprio estádio. Foi construído assim! E depois foi reformado e usado na Copa de 50. Até hoje tem um relógio enorme no estádio, que foi doação de uma das empresas naquela época.

Houve problemas de prazo na entrega das obras? Algo foi entregue inacabado?

BF – Há um boato, por exemplo, e nós conseguimos levantar até alguns documentos sobre isso, que o Maracanã foi entregue sem que as obras estivessem totalmente concluídas. Só que a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) negou na época e o próprio governo do Rio também. Nós conseguimos uma foto de um jogo que teria sido um dos primeiros, e nela há alguns alambrados, mostrando que a construção ainda não estava totalmente concluída. Então há indícios de que muita coisa foi entregue sem ter sido finalizada em 50, o que pode se repetir agora em 2014.

DS – Vou te explicar bem o que aconteceu. A gente tinha uma foto que não sabíamos se era do dia 16 de junho de 1950 ou do dia 24 de junho de 1950. 16 de junho foi a data de abertura do Maracanã, com o jogo da Seleção Paulista contra a Seleção Carioca. E no dia 24 de junho foi a abertura da Copa, com o jogo Brasil e México. Se essa foto fosse do dia 24 de junho, seria uma prova de que a Copa começou com o Maracanã em obras. Se essa foto fosse do dia 16, a gente não teria essa prova de que a Copa começou com o Maracanã em obras. Tentamos analisar, puxamos a foto em alta resolução, aproximamos e vimos que tinha uma delegação dando a volta no estádio nessa foto. Só que aí, com as fontes, vimos que essa foto é do dia 16 e não do dia 24. Mas a foto mostra andaimes, na arquibancada, e eles usaram os andaimes pra quê? Para segurar a cobertura do Maracanã, porque ela não estava seca ainda. Com os andaimes eles tinham que esperar secar todo aquele concreto para depois tirar os andaimes e o estádio ficar com a cobertura intata. Mas a foto é do dia 16. Isso não quer dizer que o estádio estivesse totalmente pronto no dia 24. Por exemplo, no dia 24, na abertura da Copa tinha lama, barro, material de construção em volta do estádio. Mas a foto com os andaimes é do dia 16, tirada oito dias antes da Copa do Mundo.

Vocês acham que é possível isso se repetir e termos alguma obra inacabada em 2014? Não falo apenas de estádios, mas obras de mobilidade urbana, aeroportos, etc.

DS – A menor preocupação, pelo menos da gente que acompanha o dia a dia, são os estádios. Todos vão ficar prontos, não sei se na data determinada. Por exemplo, em fevereiro de 2013 o Maracanã tem que estar pronto. Eu não acredito que o Maracanã vai estar pronto nessa data. Ele vai estar pronto em mais ou menos em maio, às vésperas da Copa das Confederações [a competição começa no dia 15 de junho de 2013]. Um estádio da Copa do Mundo, a Arena das Dunas, em Natal, que é o estádio mais atrasado hoje, com 33% de obras concluídas, ele vai estar pronto também, mas não em dezembro de 2013, como estava estipulado. A Copa começa em junho e o estádio vai estar pronto em abril mais ou menos, na minha opinião. Acho que a gente não precisa se preocupar com a execução dos estádios. O grande problema da Copa do Mundo vai ser com os aeroportos e com as obras de mobilidade urbana. Com relação aos aeroportos, mesmo se não tivesse Copa, estaríamos enfrentando problemas de capacidade e demanda. Tem aeroporto que corre o risco de ter obras em andamento na abertura da Copa [em Natal, por exemplo, está prevista a construção de um aeroporto nos arredores da cidade, mas a obra nem começou ainda]. Então os grandes problemas da Copa são aeroportos e mobilidade urbana. Um exemplo: o VLT de Brasília, que estava previsto na Matriz de Responsabilidades, não vai estar pronto para a Copa do Mundo. O próprio governo já disse isso e a obra foi incluída no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas sem o prazo anterior. Em São Paulo também tem o caso do monotrilho que vai ligar estádio do Morumbi ao aeroporto de Congonhas, estava previsto na Matriz porque o Morumbi era o estádio paulista da Copa, o Morumbi saiu e esse projeto continua na Matriz, mesmo sem ter nada a ver com a Copa do Mundo até agora. As obras viárias de Itaquera são muito mais importantes, por exemplo.
Hoje sabemos que a Copa tem certo custo social. Como, por exemplo, as famílias que são removidas para dar lugar a obras da competição. Isso aconteceu na Copa de 1950?

DS – No Maracanã algumas casas tiveram que ser demolidas numa rua próxima, uma rua pequena que era sem saída e tiveram que abrir essa rua para ter saída para o outro lado. E aí removeram algumas famílias dali. E logo depois, apareceu uma favela ali ao lado, é até um caso curioso porque os restos do Maracanã foram usados nas construções. Chamava Favela do Esqueleto. Hoje ela não existe mais porque foi removida no governo do Carlos Lacerda em 1960. E esse pessoal foi levado para a Cidade de Deus, um lugar bem afastado, que era a política do Lacerda na época.
Pesquisando os preparativos para a Copa de 1950, vocês acham que ficou algum aprendizado? Há um esforço para aprender com o passado?

DS – [A Copa de 50] É uma história meio esquecida. Até para a gente que mergulhou de cabeça, teve muito trabalho para conseguir esses números. Acho que o governo brasileiro sabe que a Copa foi aqui, lógico, mas ela é muito mais lembrada por conta da derrota do Brasil para o Uruguai. Acho que o grande legado da Copa de 50 foi o Maracanã mesmo. Maracanã que em 2014 vai também ser palco da final. Portanto a Copa de 50 não teve legado nenhum, porque acho que o Maracanã iria ser erguido de qualquer forma. O Rio de Janeiro pedia um estádio grande. E não vejo nenhuma preocupação do governo em enxergar o passado ou os erros de 50 para não repeti-los. Mas são épocas diferentes. Não sei se o governo tivesse essa preocupação, conseguiria evitar algum tipo de erro em 2014. Mudou muita coisa.

BF – Quando você assume a responsabilidade de fazer um evento que já foi realizado, tem que voltar os olhos para o que aconteceu no passado e fazer melhor no próximo. Mas as pessoas esqueceram a Copa de 1950. Parece que a Copa de 2014 vai ser a primeira a ser realizada no Brasil.

Para fechar: qual foi a importância da Copa do Mundo para o desenvolvimento do futebol brasileiro?

DS – O futebol já movia massas, vou te dar um exemplo: Na estreia do Leônidas da Silva [conhecido como "Diamante Negro", o craque da primeira metade do século XX com passagens vitoriosas por São Paulo e Botafogo, a quem é atribuída a invenção do gol de bicicleta] em 1942, 74 mil pessoas foram ao estádio. Mas a Copa do Mundo não suscitou a ânsia do torcedor de ir ao estádio. A não ser no Maracanã. Somente nos jogos do Brasil os estádios lotavam. O futebol ainda começava a se tornar o esporte número um do Brasil. Se você pegasse o jornal da época, tinha um espaço maior para o turfe do que para o futebol. Então acho que a Copa de 50 deu o pontapé inicial mesmo. E com a derrota na Copa do Mundo, o Brasil começou a ter um gosto maior pelo futebol. Como eu disse, já havia indícios disso na estreia do Leônidas, mas era uma coisa muito incipiente. Especialmente na década de 50 o futebol começou a cair no gosto do público. Dentro de campo muita gente até diz que a derrota de 1950 foi importante para o Brasil mudar a postura. O Brasil entrou com uma soberba absurda contra o Uruguai, achando que já tinha vencido a Copa do Mundo. Tinha vencido por 7 a 1 a Suécia, por 6 a 1 a Espanha, precisava de um empate contra o Uruguai e entrou no Maracanã com 200 mil pessoas, achando que iria ganhar a qualquer momento. A Seleção Brasileira ficou mais humilde a partir daí. Foi um pontapé inicial para o Brasil virar uma potência, o que só começou com o primeiro título, em 1958.

Fonte: http://apublica.org/2012/10/licoes-copa-1950-copa-do-mundo-2014-megaeventos/