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domingo, 8 de julho de 2012

Desporto escolar: CBDE, desleixo com os atletas


Por José Cruz

A partir da notícia sobre a quarta colocação do Brasil nos Jogos Escolares Pan-Americanos, na Guatemala, recebi a seguinte mensagem, que revela a realidade do setor e o descaso governamental Por questões óbvias resguardo a identidade do autor:

“Os atletas, de 16 e 17 anos, foram convocados pela CBDE (Confederação Brasileira de Desporto Escolar) e saíram de Brasília no dia 23 de junho, em direção a Guatemala. O voo fez escala no Panamá e a delegação ficou 12 horas no aeroporto.

1ª surpresa

Foi então que os atletas receberam a notícia de que as refeições na viagem eram por conta de cada um, a CBDE não iria pagar o almoço nem janta. Como isso não foi avisado antes da viagem, muitos atletas não tinham dinheiro suficiente para todo o tempo fora do Brasil e ficaram sem se alimentar. Outros tiveram suas refeições pagas pelos técnicos.

Fantasma

Mas havia um técnico de judô na delegação, mas o Brasil não tinha atletas dessas modalidade na competição.

Nenhuma das delegações do Brasil tinha equipe completa, o que acabou por prejudicar a nossa participação. Ao final, ficamos atrás até de outros países sul-americanos, como o Equador, que participou com equipes completas. Estivemos no handebol, vôlei, futebol, atletismo e natação.

Retorno

Na volta para o Brasil, a primeira parte da delegação desembarcou em Brasília no dia 29 de junho – domingo passado – às 22h30. Ninguém da CBDE estava no voo, apenas os técnicos.

Os atletas de outras cidades passaram a noite no aeroporto, deitados no chão dos corredores, sem direito a refeição ou local para dormir.

Foi oferecido apenas um lanche simples, sendo que a maioria viajaria somente na manhã do dia seguinte, dia 30, alguns por volta das 12h. Até então, estavam sem janta ou café da manhã.

Uniforme

Os uniformes que a delegação usou tinha o símbolo do Ministério do Esporte. Nas costas estava “Brasil”. Acredito que foi liberada verba pública para a viagem. Não tenho certeza sobre isso.

Estou preocupado porque vejo jovens, todos menores de
idade, representando o Brasil mas passando por este tipo de situação.

Não sei se isso é comum, mas não me parece certo eles serem convocados e depois ficarem atirados como estavam no aeroporto, fiquei muito triste com essa situação, principalmente porque estavam com uniforme da representação brasileira.”

Minha análise

Na segunda-feira, encaminhei esta mensagem ao Ministério do Esporte, perguntando se desejava se pronunciar. Não obtive resposta.

No mesmo dia tentei contato com a direção da CBDE. Até ontem, sexta-feira, ninguém atendia os chamados ao “novo telefone” – 61 3321- 576. A mensagem por email também foi ignorada. O presidente da CBDE chama-se Sérgio Rufino.

As denúncias são gravíssimas. Deixo de lado as críticas sobre o desempenho do Brasil porque, como se observa, foi uma delegação apenas “para constar”.

Enquanto jovens atletas são tratados de forma tão desprezível pelas instituições do esporte nacional, Brasília anuncia que será sede das Olimpíadas Escolares Mundiais – Gymnasiade 2013, evento gigantesco que se realiza a cada quatro anos. Somos, de fato, o país dos contrastes. Recursos humanos de um lado; já os financeiros…

Desporto escolar

No ano passado, o Comitê Olímpico Brasileiro recebeu R$ 15 milhões para o desporto escolar. Os recursos foram aplicados na Olimpíada Escolar e os atletas foram recebidos em excelentes hotéis e alimentação de primeira.

No entanto, quem organiza a delegação para os Jogos Sul-Americanos é a CBDE, que não paga a refeição dos atletas no deslocamento. Será que seus diretores tiveram esse “privilégio”?

Desordem

Está aí mais uma prova da “desordem no esporte”. E não é por falta de dinheiro ou de instituições ou de leis. É falta de política efetiva, de metas, de planejamento, de entrosamento entre os órgãos diretivos, de diálogo, enfim.

Esta notícia é publicada na mesma semana que outra, também neste blog, anunciou que verbas públicas destinam-se, também, ao pagamento de salários de funcionários do Comitê Olímpico e Comitê Paralímpico Brasileiros. Quem sabe de diretores, o que será gravíssimo. Ainda não tenho essa última confirmação, que solicitei ao TCU.

Observe a distância entre os fatos: atletas em evento internacional viajando sem dinheiro para a indispensável alimentação ou conforto necessário após competirem, precisando se espichar no chão de um aeroporto expondo ao vexame o uniforme do Brasil que representam.

De outra parte, recursos financiam as Olimpíadas Escolares, organizadas pelo COB. Mas quem cuida da viagem internacional é a CBDE que, como se observa, não está nem aí!!!

CPI

Mais do que nunca a CPI do Esporte se torna oportuna.

O Comitê Olímpico informa que não teremos desempenho melhor que nos Jogos de Pequim, apesar de o dinheiro público ter quase dobrado em quatro anos. Afinal, o que está ocorrendo? quem é o grande gerente desse negócio que tem fartos recursos – humanos, inclusive – mas não prevê evolução nos resultados e, de outra parte, abandona seus jovens competidores em salões de aeroportos?

Já que o Ministério do Esporte não se manifesta diante desse desmando que dura anos, quem sabe o deputado Romário, que foi atleta e sabe o que significa  a relação com cartolas, se anima sair em defesa daqueles que são a razão de ser do esporte, atletas e técnicos.


Fonte: http://josecruz.blogosfera.uol.com.br/2012/07/desporto-escolar-cbde-desleixo-com-os-atletas/

CBDE II – Novas denúncias revelam desprezo com atletas

Depois da notícia que publiquei ontem ( Desporto escolar: CBDE, desleixo com os atletas ), sobre a quarta colocação do Brasil nos Jogos Escolares Pan-Americanos, na Guatemala, recebi novas denúncias que publico na íntegra.

Elas dão a dimensão da precariedade da gestão e a necessidade de uma reação urgente do Ministério do Esporte, financiador da Confederação Brasileira de Desporto Escolar. Mais: os dirigentes da CBDE mostram desprezo com  representantes brasileiros em eventos internacionais.

Inacreditável que isso esteja ocorrendo no Brasil Olímpico Rio 2016.

“Cruz ,

Lá vão algumas coisas que não estão na sua denúncia:

Toda a delegação do Brasil viajou com a própria roupa.

Não viajamos com uniforme. Eles só foram entregue um dia antes da competição , enquanto os outros países desfilavam nas ruas com seus uniformes. Nós…, coitados de nós.

No hotel da delegação do atletismo tínhamos meio litro de água por dia, por pessoa!

A comida nos 3 primeiros dias era regulada, não podia repetir e era dada uma quantidade pequena para cada atleta.

Abraços”

Fonte: http://josecruz.blogosfera.uol.com.br/2012/07/cbde-ii-novas-denuncias-revelam-desprezo-com-atletas/

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Mais do mesmo: é grave a crise da falta de accountability no esporte nacional


Vocês lerão abaixo duas reportagens dos excelentes José Cruz e Alberto Murray sobre a falta de transparência oficializada no esporte brasileiro. Leiam e tirem suas conclusões.

Dinheiro público paga salários no Comitê Olímpico

 Por José Cruz

 O deputado Romário apelou à Lei de Acesso à Informação para que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) divulgue os salários de seus funcionários, por ser um órgão privado que recebe recursos públicos.
 “Seria simpático dar essa transparência”, disse Romário. Eu particularmente, não trabalharia na CBF por menos de R$ 150 mil mensais. Há salários assim no COB?”
 A pergunta foi ao presidente do Comitê Olímpico, Carlos Arthur Nuzman, na audiência pública desta quarta-feira, na Comissão de Turismo e Desporto da Câmara dos Deputados.
 “Somos obrigados a colocar online, ao TCU e CGU, todas as informações financeiras com gastos públicos. Os dados são auditados e estão disponíveis”, respondeu Carlos Nuzman.
 “E nesses gastos disponíveis estão incluídos os salários? – quis saber o deputado Romário.
 “Não”, disse Sérgio Lobo, diretor financeiro do COB, um tanto constrangido, respondendo a pedido de Nuzman.
 A resposta resumida, seguida de rápido silêncio, deixou implícito que salários são pagos com recursos públicos, mas com a concordância dos órgãos de fiscalização do governo federal.
 “Logo, devem se tornar públicos em obediência à Lei de Acesso à Informação”, concluiu Romário, após a audiência.
 Sem revelar valores, Sérgio Lobo afirmou que parte dos recursos da Lei Agnelo Piva pagam salários no COB. Os recursos, vindos das loterias federais, contemplaram o Comitê com R$ 904 milhões no primeiro decênio, entre 2001 e 2011?
 Para Essa operação interna, até agora desconecida, o COB dispõe de dados de uma empresa especializada no assunto para calcular o salários de seus técnicos compatíveis com os de mercado, segundo Sérgio Lobo.
 A Lei Agnelo Piva foi criada em 2001 e funciona da seguinte forma: 2% das arrecadações das loterias federais sáo repassados aos comitês Olímpico e Parolimpico para aplicação eprojetos de esporte?
 As despesas são auditadas pelo Tribunal de Contas da União. No COB, um sistema de comunicação instantanêa permite que técnicos do TCU acompanhem a movimentação da conta no mesmo momento em que o uso dedeterminado recurso é realizado.

 Altos Salários do Comitê Olímpico Brasileiro São Pagos Com Dinheiro Público.

 Por Alberto Murray

 Hoje Carlos Nuzman esteve em Brasília D.F., acompanhado de assessores, para uma audiência pública da Câmara dos Deputados. Estou fora do Brasil. Nem bem acabou a sessão amigos e companheiros de luta pela transparência no esporte ligaram-me para relatar os acontecimentos.
 Ao contrário das outras vezes, em que os ouvintes era obrigados a escutar longos, exaustivos e inúteis discursos da cartolagem, dessa vez, o encontro foi produtivo.
 E graças a boa atuação do Deputado Romário que fez perguntas corretas, precisas. Foi em uma resposta dada ao Deputado que a cúpula do Comitê Olímpico Brasileiro admitiu que os salários pagos aos seus executivos não estão na prestação de contas “on line” ao TCU. Admitiram que utilizam dinheiro do povo para remunerar executivos de uma entidade que insistem chamar de privada, qual seja, o Comitê Olímpico Brasileiro. Leiam o artigo de José Cruz, em seu Blog, que muito bem trata do assunto.
 Segundo fui informado, as perguntas do Deputado Romário criaram grande e visível constrangimento na diretoria do Comitê Olímpico Brasileiro. Nuzman, intensificando seus tiques, mostrou absoluto desconforto.
 Quem me acompanha sabe que, para mim, isso não é novidade. Sempre denunciei neste espaço que os altíssimos salários pagos pelo Comitê Olímpico Brasileiro a seus superintendentes e diretores contratados é feito com recursos públicos. Jã discorro sobre o assunto em programas de televisão e em artigo publicado na Folha de São Paulo.
 Um dos erros mais graves do Comitê Olímpico Brasileiro foi inflar a valores estratosféricos a sua folha de pagamentos. Já provamos e comprovamos que cerca de metade do que arrecada o Comitê Olímpico, é gasto em sua própria burocracia. E, por essa razão, sobra menos para as Confederações, para os atletas.
 É uma inversão de valores o dinheiro público sustentar salários muito altos de seus executivos, com dinheiro público, muito mais do que ganham a Presidência da República, Ministros de Estado, Ministério Público, Magistrados e Procuradores.
 Tomara que agora essas autoridades voltem-se para essa séria questão.
 Um Comitê Olímpico que vive de dinheiro do povo para satisfazer seus próprios caprichos, não pode se dizer, juridicamente, entidade privada. Perde essa condição, do ponto de vista legal. E mais do que isso, vários de seus serviços contratados com terceiros, também pagos com dinheiro do povo, tais como jurídicos, consultorias, contábeis e outros NÃO são feitos por licitação pública, como os obriga o Decreto regulamentador da Lei Piva.
 É certo que agora o Comitê Olímpico Brasileiro colocará seus lobistas e serviçais para abafar esse escândalo, no Congresso Nacional e na imprensa. Mas que eles não sucumbam às pressões implacáveis da trupe do Comitê Olímpico Brasileiro. Que a imprensa denuncie esse fato. E que as autoridades competentes investiguem.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Gestão olímpica: a escola do fracasso


Por José Cruz
Há 21 anos, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro tinha apoio unânime dos presidentes das confederações. Prestigiado por gestão de sucesso – também longuíssima, outros 21 anos – na Confederação de Vôlei, não havia opositores.
Agora, cinco ciclos olímpicos depois de ter chegado ao COB, seis cartolas não apóiam Carlos Nuzman. Registra-se o impressionante surgimento de um opositor a cada três anos e meio. E por que essa idolatria de longo prazo?
“Porque há carência de pessoas”, respondeu Carlos Nuzman aos repórteres Eduardo Tironi e Michel Castellar, do diário Lance, deste domingo.
Por etapas:
Até 2001 havia queixas, choros, lamúrias de que faltava “apoio”. Dinheiro, em outras palavras.
Veio a Lei Agnelo Piva que seria “a redenção do esporte olímpico”. Veio a Bolsa Atleta
Foi editada a Lei de Incentivo ao Esporte. De três estatais, hoje são oito financiando o esporte olímpico e paraolímpico. Em 2003 criaram um ministério específico, do Esporte, que despeja dinheiro do orçamento nas confederações.
Revelação
Mas, mesmo diante dessa fartura de fontes de recursos, Nuzman nos revela que não temos “pessoas qualificadas” – para gestores … Por isso, os mesmos continuam nos cargos.
Indiretamente, Nuzman passa o atestado da incompetência da cartolagem – que o apóia. Foram incapazes, mesmo com muito dinheiro, de formar novos quadros. E explica, por extensão, o motivo de o COB não projetar medalhas em novas modalidades nos Jogos de Londres: nossos dirigentes são inexperientes, despreparados, amadores.
E os poucos que conseguem se salvar dessa catástrofe olímpica  ganha o alvará de continuísmo — segundo Nuzman. Assim, pela carência de competentes atropela-se a democracia, a renovação, como ocorreu com Jorge Lacerda, o mais recente golpista na gestão do esporte, ao rasgar a lei para se manter no poder.
Isolamento
Os argumentos de Carlos Nuzman reforçam a tese do isolamento do COB e das confederações da sociedade esportiva em geral. Governam independentes, sem diálogo, ignoram a universidade, sede do saber, da pesquisa e da formação de gestores, sim senhores. Mas quem orienta quem neste baile de cada um por si? Somos um país olímpico com carência de especialistas no assunto. Haja importações milionárias… pois há dinheiro público para tanto. E quem se beneficia desse saber importado?
“Eu trabalho com uma equipe que facilita muito”, disse Nuzman aos repórteres. É a “Escola do COB” e o resto que se lixe – e pela entrevista não há outra expressão, é resto mesmo!
Enfim, é mais uma entrevista triste essa de Carlos Nuzman, pois revela o que tenho escrito, sobre o desmando generalizado do nosso esporte de rendimento. Temos instituições, leis, fartíssimos recursos financeiros. Mas não temos um plano integrado de todos os segmentos, metas, prioridades, planejamento. Como o dinheiro do contribuinte  entra fácil é cada um por si, e isso sugere estarmos num processo de desperdício constante. E desperdício contínuo de talentos.
Insisto: quem forma atleta olímpico? O COB? A Confederação? O clube? Pois todos esses recebem muito – e muito é muito mesmo! – dinheiro público para o mesmo fim : “formação da delegação olímpica”.
E, agora, também a Confederação Brasileira de Clubes vai receber dinheiro — está na Lei Pelé. Sabem pra quê? “formação da equipe olímpica”… Serão R$ 40 milhões este ano.
Gostaria muito de ver o plano dessas instituições e confrontá-las para saber quem está gastando o quê. Com quem? Quanto?
Estão aí as mazelas deixadas pelo Pan 2007. O que fizeram os governos do Estado do Rio de Janeiro e do Município para aproveitarem o evento como impulsionador de um projeto integrado de identificação e formação de talentos?
Que grandes eventos as áreas esportivas receberam nos últimos quatro anos? Que público ocupou aquelas praças?
Mas o desejo da maioria é pela continuidade de Nuzman. Faz sentido. Porque, como já escrevi, se mudar para tentar melhorar, o sistema estraga, desmorona. E isso não interessa aos que dominam o campo de jogo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011