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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Londres entrega e agora cai na ressaca olímpica


Por Daniela Milanese

Esperava-se uma cidade caótica, saturada e tensa. Ao invés disso, a capital britânica se mostrou uma sede olímpica organizada, tranquila e alto astral. Ao final dos Jogos, é possível dizer que Londres entregou suas promessas.

A principal receita dos britânicos foi o planejamento. Eles se adiantaram, finalizaram as principais instalações um ano antes da abertura do evento e amarraram a logística. Para ajudar, os atletas da casa engataram a melhor campanha em mais de um século e conseguiram 29 medalhas de ouro – com a contribuição de britânicos de origem em outros países, num destaque do multiculturalismo. Mais ainda: a chuva que azucrinou os londrinos ininterruptamente durante um mês antes da abertura deu lugar a temperaturas agradáveis e dias ensolarados.

Houve contratempos, é claro. O contrato com a empresa de segurança privada G4S falhou e o exército foi convocado às pressas para cobrir o buraco. Os soldados também tiveram de preencher os lugares vazios nos estádios, frutos dos problemas no esquema de distribuição de ingressos do Comitê Olímpico Internacional. A “ditadura dos patrocinadores” irritou até o governo britânico, com diversas situações absurdas para proteger a marca daqueles que colocam dinheiro do setor privado. Teve ainda o embaraço do sumiço das chaves do histórico Estádio de Wembley, palco do futebol.

Para evitar a superlotação dos transportes, a estratégia foi mesmo assustar a população. Era um bombardeio diário de alertas sobre a possibilidade de caos, reforçado até por mensagens gravadas do prefeito de Londres, Boris Johnson, nas estações de metrô.

De fato, as pessoas ficaram em casa, cancelaram compromissos pelo cidade ou foram viajar. Os turistas, como sempre acontece, passaram mais longe da sede olímpica. Assim, foram evitados maiores gargalos e grandes filas no controle de imigração no aeroporto de Heathrow, o mais movimentado da Europa.

O comércio reclamou da paradeira, problema que ganha amplitude em meio à recessão econômica no país. Mas, do ponto de vista dos organizadores, antes duas semanas de vendas mais fracas do que carregar a fama de Olimpíada caótica.

O sistema de telecomunicações, outra preocupação, também deu conta. Para aliviar a rede de celular 3G, foram instalados diversos pontos adicionais de Wi-Fi pela cidade, em acordos com operadoras locais. No Parque Olímpico, o sistema por vezes não se mostrava uma grande maravilha, mas passou sem grandes transtornos.

As mídias sociais revelaram o seu papel na “Olimpíada da tecnologia”. Pela primeira vez, estiveram realmente presentes nos Jogos – em Pequim, além das restrições de acesso, ainda não estavam tão disseminadas. E foram várias as polêmicas via Twitter. Comentários preconceituosos, afastamento de atletas e desentendimentos com torcedores marcaram as duas últimas semanas.

Os 70 mil voluntários descontraíram totalmente o ambiente. Ao chegar aos locais das provas, os torcedores sempre eram recebidos com boas vindas animadas e bom humor. Evitou-se, assim, o clima de tensão com a segurança por vezes exagerada numa cidade alvo de terrorismo – foram instalados mísseis nos tetos de moradores assustados, enquanto um navio de guerra permanecia no Tâmisa.

“O Reino Unido entregou”, resumiu em duas palavras o primeiro-ministro britânico, David Cameron. Realmente, lições para 2016. Mas resta a preocupação com o tão falado legado dos Jogos: a recessão levanta o risco de que a herança seja apenas física e que os cortes de gastos do governo corroam os investimentos em esportes. Para os londrinos, difícil agora será enfrentar a ressaca da realidade de crise a partir desta segunda-feira.

MO FARAH MANIA – O atleta britânico, de origem somali, Mohamed Farah virou sensação no Reino Unido, ao vencer a prova dos 10 mil metros e dos 5 mil metros, ganhando duas medalhas de ouro em Londres. Neste domingo, ele foi recebido pelo primeiro-ministro David Cameron, em sua residência oficial em Downing Street, e posou para fotos com o seu já famoso gesto de braços em forma da sua inicial “M”. Pelé também estava presente.

CAMERON DE FÉRIAS – Após duas semanas de Olimpíada, o primeiro-ministro David Cameron vai tirar um período de férias, já a partir desta segunda-feira. Ele estará de volta a tempo da abertura da Paralimpíada de Londres, em 29 de agosto. “Todos os seres humanos precisam de férias”, justificou, sob críticas da imprensa local.

HEATHROW – A segunda-feira pós-Olimpíada deve ser o dia mais movimentado da história do aeroporto de Heathrow. Isso porque os atletas e torcedores foram chegando aos poucos, mas tendem a concentrar a saída na data seguinte à cerimônia de encerramento.

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/daniela-milanese/2012/08/13/londres-entrega-e-agora-cai-na-ressaca-olimpica/

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Gestão olímpica: a escola do fracasso


Por José Cruz
Há 21 anos, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro tinha apoio unânime dos presidentes das confederações. Prestigiado por gestão de sucesso – também longuíssima, outros 21 anos – na Confederação de Vôlei, não havia opositores.
Agora, cinco ciclos olímpicos depois de ter chegado ao COB, seis cartolas não apóiam Carlos Nuzman. Registra-se o impressionante surgimento de um opositor a cada três anos e meio. E por que essa idolatria de longo prazo?
“Porque há carência de pessoas”, respondeu Carlos Nuzman aos repórteres Eduardo Tironi e Michel Castellar, do diário Lance, deste domingo.
Por etapas:
Até 2001 havia queixas, choros, lamúrias de que faltava “apoio”. Dinheiro, em outras palavras.
Veio a Lei Agnelo Piva que seria “a redenção do esporte olímpico”. Veio a Bolsa Atleta
Foi editada a Lei de Incentivo ao Esporte. De três estatais, hoje são oito financiando o esporte olímpico e paraolímpico. Em 2003 criaram um ministério específico, do Esporte, que despeja dinheiro do orçamento nas confederações.
Revelação
Mas, mesmo diante dessa fartura de fontes de recursos, Nuzman nos revela que não temos “pessoas qualificadas” – para gestores … Por isso, os mesmos continuam nos cargos.
Indiretamente, Nuzman passa o atestado da incompetência da cartolagem – que o apóia. Foram incapazes, mesmo com muito dinheiro, de formar novos quadros. E explica, por extensão, o motivo de o COB não projetar medalhas em novas modalidades nos Jogos de Londres: nossos dirigentes são inexperientes, despreparados, amadores.
E os poucos que conseguem se salvar dessa catástrofe olímpica  ganha o alvará de continuísmo — segundo Nuzman. Assim, pela carência de competentes atropela-se a democracia, a renovação, como ocorreu com Jorge Lacerda, o mais recente golpista na gestão do esporte, ao rasgar a lei para se manter no poder.
Isolamento
Os argumentos de Carlos Nuzman reforçam a tese do isolamento do COB e das confederações da sociedade esportiva em geral. Governam independentes, sem diálogo, ignoram a universidade, sede do saber, da pesquisa e da formação de gestores, sim senhores. Mas quem orienta quem neste baile de cada um por si? Somos um país olímpico com carência de especialistas no assunto. Haja importações milionárias… pois há dinheiro público para tanto. E quem se beneficia desse saber importado?
“Eu trabalho com uma equipe que facilita muito”, disse Nuzman aos repórteres. É a “Escola do COB” e o resto que se lixe – e pela entrevista não há outra expressão, é resto mesmo!
Enfim, é mais uma entrevista triste essa de Carlos Nuzman, pois revela o que tenho escrito, sobre o desmando generalizado do nosso esporte de rendimento. Temos instituições, leis, fartíssimos recursos financeiros. Mas não temos um plano integrado de todos os segmentos, metas, prioridades, planejamento. Como o dinheiro do contribuinte  entra fácil é cada um por si, e isso sugere estarmos num processo de desperdício constante. E desperdício contínuo de talentos.
Insisto: quem forma atleta olímpico? O COB? A Confederação? O clube? Pois todos esses recebem muito – e muito é muito mesmo! – dinheiro público para o mesmo fim : “formação da delegação olímpica”.
E, agora, também a Confederação Brasileira de Clubes vai receber dinheiro — está na Lei Pelé. Sabem pra quê? “formação da equipe olímpica”… Serão R$ 40 milhões este ano.
Gostaria muito de ver o plano dessas instituições e confrontá-las para saber quem está gastando o quê. Com quem? Quanto?
Estão aí as mazelas deixadas pelo Pan 2007. O que fizeram os governos do Estado do Rio de Janeiro e do Município para aproveitarem o evento como impulsionador de um projeto integrado de identificação e formação de talentos?
Que grandes eventos as áreas esportivas receberam nos últimos quatro anos? Que público ocupou aquelas praças?
Mas o desejo da maioria é pela continuidade de Nuzman. Faz sentido. Porque, como já escrevi, se mudar para tentar melhorar, o sistema estraga, desmorona. E isso não interessa aos que dominam o campo de jogo.