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domingo, 7 de outubro de 2012

Lições olímpicas: Atenas até hoje não sabe custo dos Jogos


Evento é considerado um dos motivos da crise econômica da Grécia

Por Cláudia Machado

ATENAS - O partido grego Pasok supõe que foram gastos € 6 bilhões, enquanto o Nova Democracia estima algo em torno de € 10 bilhões. Entre desacordos, outros partidos são mais taxativos: € 27 bilhões, no mínimo. Em 2007, o Comitê Olímpico Internacional (COI) havia estipulado que seriam gastos € 1,3 bilhão nas Olimpíadas. Falta de clareza à parte, o evento é considerado um dos motivos de a Grécia ter mergulhado em sua pior crise econômica, quatro anos mais tarde.
Gastos excessivos e falta de planejamento após as Olimpíadas frustraram quem achava que o megaevento impulsionaria o desenvolvimento do país. Em 2003, estudos do Ministério da Fazenda sobre os benefícios dos Jogos anunciaram que, nos 12 meses seguintes, Atenas seria uma potência turística, criando diretamente 445 mil novos postos de trabalho. Para os europeus, iria se tornar destino de fim de semana.
No entanto, as pesquisas falharam. Se em 2003, 13 milhões de turistas desembarcaram em Atenas, em 2004 os números caíram para 11,7 milhões. Quando se previa que em 2010 os visitantes seriam 20 milhões, eles não passaram de 15,5 milhões. Com a queda no turismo, cerca de 700 hotéis foram postos à venda, e centenas deles faliram.
A qualidade de vida também atingiu os gregos. Um ano depois dos Jogos, houve contração do PIB de 1,6%. Atualmente, as Olimpíadas somam cinco pontos percentuais à dívida da Grécia em proporção ao PIB, de aproximadamente 110%. Além disso, devido aos gastos excessivos, não sobrou dinheiro para melhorias nos sistemas de saúde e educação. O custo de vida se tornou mais caro, e o número de imigrantes em um país de 11 milhões de habitantes chegou a quase um milhão devido às contratações ilegais para as construções olímpicas.

Cidade melhorou mas não avaliou impactos
A crise que se seguiu aos Jogos leva os gregos a não valorizarem qualquer legado. Para políticos envolvidos no evento, os Jogos deixaram Atenas mais moderna, com a expansão no sistema de transporte, estradas, estádios, além de créditos internacionais por ter sido capaz de organizar um evento de tal porte. Segundo o presidente do Comitê Olímpico da Grécia, Spyros Capralos, não se pode negar que, depois das Olimpíadas, a capital ganhou um aeroporto moderno, excelentes meios de transportes, como metrô, veículo leve sobre trilhos (VLT) e ônibus elétricos, e novas estradas.
— Houve falhas, atrasos na maioria das obras e desperdícios. Pela pressão do tempo, faltaram estudos ambientais e de gestão após a conclusão dos complexos olímpicos. Mas devemos admitir que a cidade ficou mais moderna, e, se fosse hoje, aceitaria novamente realizar as Olimpíadas na Grécia — afirmou Capralos.
Por outro lado, cidadãos se decepcionaram com a desorganização e a corrupção trazidas pelos Jogos.
— A população em geral ficou orgulhosa de ver a cidade limpa, cheia de flores, com ruas pintadas e vários eventos culturais. Também notamos a diferença de estradas, meios de transportes e aeroportos. No entanto, se convertêssemos as dívidas olímpicas por obras de infraestrutura, seríamos uma das cidades mais modernas da Europa e sem a necessidade de pagarmos tão caro — avaliou o economista Vasilis Petridis.
Para ele, a inexatidão dos gastos, os atrasos nas obras, as trocas constantes de organizadores do Comitê Atenas-2004, a má administração, a falta de planos de impactos econômicos e ambientais a longo prazo e a ausência de licitações para a construção de instalações olímpicas causaram uma amarga experiência.
— A Grécia enfrenta grave crise financeira devido às condições econômicas internacionais, à corrupção política, à má gestão e a valores inaceitáveis nos Jogos 2004. O momento de grandeza da Grécia se apagou na noite de encerramento dos Jogos. O Brasil deve ficar atento aos gastos, e os brasileiros devem exigir clareza. As obras precisam ser realizadas dentro dos prazos, e as empresas construtoras, escolhidas por licitações, sem propinas. Não façam como nós gregos. O resultado é catastrófico, e o declínio, rápido — aconselhou o economista.
Os 23 complexos olímpicos são considerados “elefantes brancos”, e apenas cinco não estão obsoletos. O Centro de Imprensa, com contrato de aluguel de 30 anos, virou shopping center. Para a manutenção e conservação das instalações são necessários € 30 milhões anuais, valor que a economia grega não suporta, estando a maioria dos complexos abandonada.
O estádio de abertura e encerramento dos Jogos, o OAKA, é o principal exemplo dos custos exorbitantes das instalações olímpicas. Orçado em € 3 milhões, consumiu € 399 milhões. Obras fantasmas também fazem parte da herança dos Jogos. Um exemplo é a rodovia que liga a região de Schimatari a Parnitha. Os gregos pagaram € 2,2 milhões pela rodovia, que nunca saiu do papel.
— Restaram dívidas, decepção e algumas estradas na capital. Sediar Jogos não é tarefa fácil e requer honestidade — disse o comerciante Vasilis Tsantilas.
Para a estudante de Direito Spyridoula Soulis, apesar da expansão dos transportes e de a vila olímpica ter oferecido moradia a centenas de famílias de baixa renda, os gastos com os Jogos não trouxeram benefícios econômicos:
— Digo não aos Jogos Olímpicos. O evento nos deixou prejuízos. Algumas pessoas ficaram milionárias, mas nós, contribuintes, pagamos por isso.

Sistema de segurança jamais funcionou
Outro fiasco de Atenas-2004, envolve o sistema de vigilância superpanóptico C41. A segurança dos Jogos custou US$ 1,5 bilhão, sendo US$ 300 milhões gastos com o C41, que nunca funcionou e continua inviável. Durante a abertura dos Jogos de Londres 2012, o jornal grego “To Vima” publicou uma série de reportagens sobre o por quê de uma cidade querer sediar Olimpíadas. Segundo o jornal, os desafios são maiores do que o gosto da vitória. Os Jogos não mudam a reputação de uma cidade, nem fazem turistas escolhê-la como destino ou sequer atraem milionários ou investidores. “Se na equipe não trabalharem pessoas sérias, o país pode falir”, estampou a publicação.
Com o slogan “bem-vindos de volta” e uma cerimônia de abertura emocionante, na qual séculos de História foram contados, as Olimpíadas de Atenas deixaram cicatrizes irreparáveis na sociedade e na economia do país. A Grécia não conseguiu tirar proveito do maior evento esportivo do planeta. Hoje endividada, parece não sentir orgulho do evento que ela mesma deu ao mundo.

Olimpíadas impulsionaram dois prefeitos
Apesar dos problemas econômicos na Grécia depois das Olimpíadas 2004, os dois prefeitos que prepararam Atenas para o megaevento esportivo tiveram ascensão em suas carreiras políticas.
Dimitris Avramopoulos, responsável pela candidatura olímpica e prefeito de Atenas de 1995 a 2002, popularizou-se ao trazer de volta aos gregos os Jogos que criaram. Graças a isso, ele foi reeleito prefeito em 1998 com 57,7% dos votos, recorde em eleições municipais. Ao deixar a prefeitura, Avramopoulos ocupou cargos de ministro de Turismo, Saúde e Defesa e foi vice-presidente do maior partido grego, o Nova Democracia. Em junho deste ano, se tornou ministro das Relações Exteriores.
Filha do ex-primeiro ministro da Grécia Constantinos Mitsotakis e experiente como ministra do Turismo, Dora Bakoyannis assumiu a prefeitura de Atenas em 2003. Primeira mulher a se tornar prefeita da cidade, teve 18 meses para preparar a capital para os Jogos.
Quando eleita, Bakoyannis declarou que, apesar do curto prazo, seria capaz de organizar Atenas cultural e tecnicamente. A promessa foi cumprida. Com base no slogan da sua campanha “obras, colaboração, administração e resultados”, em agosto de 2004 ela entregou a capital limpa, florida e funcionando organizadamente. Seu trabalho foi reconhecido um ano mais tarde ao receber o prêmio bienal “Prefeita do Mundo de 2005”.
De 2006 a 2009, Bakoyannis foi ministra das Relações Exteriores. Em 2010, foi expulsa do partido Nova Democracia por ter votado contra as medidas de austeridade impostas pelo FMI e pela União Europeia. Fundou seu próprio partido, a Aliança Democrática. Neste ano, se coligou novamente ao ND, pelo qual é deputada.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/licoes-olimpicas-atenas-ate-hoje-nao-sabe-custo-dos-jogos-6277739#ixzz28cb2MRw5

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Atenas usou Vila Olímpica para projeto social de habitação


Projeto pode ser considerado um modelo de sucesso e um dos grandes legados dos Jogos de 2004

Destinado desde o início a moradores de baixa renda, o projeto da Vila Olímpica de Atenas pode ser considerado um modelo de sucesso e um dos grandes legados das Olimpíadas de Atenas, em 2004.

As 2.500 moradias construídas nos arredores de Parnitha, a noroeste de Atenas, foram entregues para trabalhadores de baixa renda inscritos em programas de moradia do governo. Com prédios de quatro e cinco andares, em uma área de 1 milhão de metros quadrados, o local hoje abriga 10 mil moradores.

O engenheiro Iones Csipolitos, da Fundação Hellenic Olympic Properties, explica que as moradias foram construídas pelo Ministério do Trabalho e destinadas às pessoas que tinham feito inscrição no programa social. De acordo com ele, a maior parte dos apartamentos tem três quartos e cerca de 100 metros quadrados.

“O programa desde o início foi esse, ser destinado a habitação de trabalhadores, da casa do trabalhador. Embora fosse destinado ao programa social, foi construído em muito boas condições, com materiais muito bons, não como de modo geral a construção destes programas sociais é feito”.

De acordo com a vice-prefeita para Assuntos Internacionais de Atenas, Sophie Daskalaki-Mytilineou, a Vila Olímpica foi um dos principais benefícios para a população de Atenas.

“As obras podem ser separadas da seguinte maneira: primeiro o país tem que preparar a sua infraestrutura, as estradas, as ferrovias, os transportes rodoviários, o aeroporto, e, por outro lado, também os estádios, que devem ser modernos e de fácil acesso. Além disso, foi criada a Vila Olímpica, que, depois, cerca de 2.500 casas foram entregues a trabalhadores de baixo nível de rendimento ou a desempregados”.

Revitalização - Sophie explica que a prefeitura também promoveu, na época, um programa de embelezamento das praças e estradas, além de um programa de incentivo para renovação das fachadas dos prédios e casas.

“A prefeitura entrava com um percentual desse custo, de 30% a 40%, o restante era pago pelos proprietários. Houve, neste período, a renovação de cerca de 3 mil fachadas em pontos centrais da cidade e o programa continuou após as Olimpíadas, chegando a 5 mil”.

Outro legado para a cidade, segundo Sophie, foi a revitalização do centro arqueológico, com o Partenon e o Estádio Panathinaiko - onde ocorreram os primeiros Jogos da Era Moderna, em 1896 -, a renovação da frota de ônibus, a construção do Aeroporto Internacional Eleftherios Venizelos, da linha do bonde e do metrô, que enfrentou diversos problemas.

“Temos o problema das antiguidades da cidade, a cada metro que se cava descobre-se uma cidade antiga abaixo da cidade nova, então o serviço de arqueologia teve que enfrentar muitos problemas burocráticos e também de construção por parte dos engenheiros. Se não houvesse essa premência dos Jogos Olímpicos, pode ser que a construção do metrô demorasse mais”.

Manutenção - O secretário-geral do Ministério da Cultura e Turismo para a Utilização Olímpica, Yannis Pyrgiotis, destaca também os investimentos em infraestrutura, o avanço tecnológico das redes de energia e telecomunicações. Como conselho para o Brasil, Pyrgiotis diz que Atenas errou em fazer instalações esportivas muito grandiosas.

“Depois, eles não vão saber o que fazer com aquilo e como manter a limpeza, a guarda. Então, pela nossa experiência, talvez seja melhor fazer coisas temporárias. Ainda que o custo seja muito grande, maior do que o da construção permanente. É melhor fazer isso, porque se você levar em consideração o custo de manutenção a longo prazo. Não vale a pena”.

Conselhos 
Apesar de ter cedido algumas instalações olímpicas para investidores particulares, Atenas ainda gasta cerca de 15 milhões de euros por ano com a manutenção dos equipamentos esportivos. Valor que não é alcançado com o aluguel dos espaços.

De acordo com Pyrgiotis, a Fundação Hellenic Olympic Properties foi criada imediatamente após o término dos Jogos Olímpicos para que fosse feito um programa de utilização comercial, social e política dos equipamentos esportivos. Para ele, foi tarde demais.

“Devia ter sido feito antes das construções, para que já se tivesse em mente o que deveria fazer. O quanto mais cedo fizer essa programação para as instalações após o término dos jogos, tanto melhor será para vocês. O Brasil vai sofrer uma grande pressão de vários fatores e em todas as cidades olímpicas existe a ideia de que todos os problemas vão se resolver com os Jogos Olímpicos. É preciso que haja uma hierarquia das necessidades, não se pode satisfazer a todo mundo”.

Para a taxista brasileira Kátia Regina Paravatos, que já estava na Grécia durante as Olimpíadas, a população teve benefícios com os Jogos, mas os gastos foram muito altos.

“Ajudou muito porque agora a gente está usufruindo tudo isso que ficou de infraestrutura. Acho que valeu a pena, mas por outro lado, foi um gasto muito grande que, eu acho, a Grécia não estava preparada”.

Crise grega
Para alguns analistas, de acordo com a BBC Brasil, os gastos com as Olimpíadas de 2004 foram o começo da crise econômica da Grécia. O custo anunciado de 8,9 bilhões de euros, além de ser o dobro da estimativa inicial, foi o mais alto de todas as Olimpíadas da história moderna, até então.

Em 2004, a Grécia era o segundo país mais pobre da União Europeia e a economia fechou com déficit de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB). A dívida pública subiu, naquele ano, para 98,6% do PIB. E chegou, em 2010, a 144,9%.

Outro fator que pesou no custo de realização dos jogos de 2004 na Grécia foi a preocupação redobrada com a segurança, já que eram as primeiras Olimpíadas realizadas apos os ataques de 11 de setembro de 2001.

*Colaborou Beatriz Arcoverde, repórter do Radiojornalismo
*As entrevistas foram feitas em Atenas, em abril de 2010.

Fonte: http://www.portal2014.org.br/noticias/10426/ATENAS+USOU+VILA+OLIMPICA+PARA+PROJETO+SOCIAL+DE+HABITACAO.html